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A doação de António de Almeida Metelo Seixas (2013) tem sido um importante recurso, ao qual temos regressado com frequência, para o desenvolvimento da rubrica deste ano 12 meses 12 peças. Ponto de partida para o estudo, compreensão e divulgação da coleção de Desenho do museu. Entre as várias obras que a integram, do mestre Adelino Ângelo, destacamos, pela técnica de execução, um desenho a carvão.

Adelino Ângelo nasceu em 1931 na Casa de Lamas em Vieira do Minho. Histórico solar da família, cuja construção remonta ao século XVI, com fases construtivas ao longo dos séculos XVII e XVIII e posteriores obras de adaptação decorrentes das funções que foi assumindo. O edifício, hoje propriedade da autarquia, aloja a Casa Museu Adelino Ângelo, onde renovadamente se expõe a obra do mestre. Pródigo nas palavras e na forma aberta como fala de si, do seu percurso e da sua arte, em entrevistas, homenagens, simples conversas ou nas biografias partilhadas nas publicações, nos vídeos ou na informação disponível na Casa Museu / Fundação, a que facilmente se acede pela internet. Porém, é parco quando fala da infância. A condição profissional do pai, Juiz Conservador do Registo Predial, obrigava-o a uma mobilidade residencial, que este considerou pouco adequada ao crescimento e educação do filho. A casa dos avós foi, assim, o berço que o acolheu e Guimarães a terra onde fez os primeiros estudos. Da relação com os pais, com os irmãos, das brincadeiras de criança, dos seus sonhos e motivações, apenas estes últimos ganham relevância, traduzida na prática e no gosto que afirma pelo desenho. Desde cedo tomou a arte como projeto de vida, como forma de expressão e de comunicação. O meio através do qual vê, interpreta e participa socialmente. Na ausência de apoio familiar para prosseguir os estudos nas Belas Artes, ele próprio toma em mãos essa responsabilidade. Terminado o ensino liceal aos 17 anos vai para Lisboa, pagando a formação na Escola Superior de Artes, a pensão no Chiado e todas as despesas, por meio da venda dos seus trabalhos. De 1957 a 1961, trabalhou como designer para a indústria têxtil (estamparia da seda para a alta-costura). De 1961 a 1974, é convidado para lecionar na Escola Comercial e Industrial Francisco Holanda, em Guimarães. Aqui deixou um conjunto de retratos alusivos aos reis de Portugal e algumas figuras cimeiras do Estado Novo. Valer-lhe-iam alguns dissabores após o 25 de Abril de 74, o que ele designa de “perseguição política”, a obrigá-lo a abandonar a escola e a uma estada alternativa em Espanha. Retrataria mais tarde outras figuras representativas da cultura, da Igreja e do cenário político democrático do país, como D. Manuel Martins, Mário Soares, Sá Carneiro, entre muitos outros. O retrato é uma temática recorrente na sua obra. Entre os muitos pintados por si contam-se, também, personalidades estrangeiras bem conhecidas de todos, como Juan Carlos de Espanha ou João Paulo II. Em entrevista dada a Patrícia Gonçalves afirma “Para fazer um bom retrato é necessário ser-se um bom anatomista, fisionomista, psicólogo e ser, por excelência, um grande desenhador[1].

Mestre Adelino pinta exaustivamente a etnia cigana. Apreende-lhe os costumes, os gestos, as expressões, a alma. Toma, também, como modelos as pessoas da rua, mendigos, indigentes, loucos, homens na sua condição mais frágil, desprotegida, degradante. A humanidade desnudada no seu lado mais sombrio, exposta nesses “Cristos sem espinhos”, vergados pela angústia, pelo abandono, pela dor, mas ainda assim, ousando erguer o rosto, olhando-nos, interrogando-nos, intimando-nos a ver, a refletir … talvez por isso ele entenda que “aprender a ver é a primeira arte do mundo[2]. No seu processo criativo, o artista transpõe para a tela o que vê e o que sente e através da obra, mostra, inquieta, provoca… “O pintor exorciza todo um universo de emoções que o ser humano é capaz de exprimir” (Jardim, 2018). Humanista como se define, desassossegado e andarilho[3], encontrou no estrangeiro uma empatia com a sua linguagem estética e o reconhecimento que as várias exposições em que participou em Espanha, França, Brasil ou Estados Unidos testemunham. São várias as obras publicadas em Portugal e no estrangeiro, de autores que abordam ou refletem sobre o artista e a sua obra, como A. Garibaldi, Francisco Pablo, Sérgio Mourão, Antónia Jardim, Fernando António Batista-Pereira, entre outros, bem como as obras de sua autoria que ilustraram os livros de outros criadores, inscritas no site da sua Casa Museu, numa biografia pormenorizada do artista. Se as palavras do mestre expressam a existência de um ressentimento antigo, “ desde o início que as portas permaneceram fechadas[4], foi certamente colmatado pelas muitas homenagens, exposições, entrevistas e obras que lhe tem vindo a ser dedicadas. A sua Fundação / Casa Museu são um espaço de diálogo privilegiado e assíduo de Mestre Adelino Ângelo com a sua terra e a sua gente. Imbuído de um grande misticismo e de um forte sentido social, a sua obra é intensa e tocante. Quer quando mergulha num dramatismo existencial que colhe e estigmatiza muitos seres humanos, na sua insanidade, na sua miséria, no seu abandono…. ; quer quando regista o seu lado mais alegre e despreocupado, no vigor com que celebra a festa ou na manifestação de ternura e de aconchego do peito e do abraço materno. Toda ela é uma explosão de vida, de sentimento, de emoção. Numa linguagem figurativa, sobre fundos quase monocromos, planos, o traço seguro, a pincelada larga, espontânea, corporizam universos imersos em luz e cor. A proximidade do primeiro plano dá-lhe uma dimensão maior, como se o espaço lhe fosse insuficiente. Parecem querer projetar-se para o exterior, tocar-nos. No desenho do acervo do museu, datado de 2009, estruturam-se dois níveis, dois tempos, duas narrativas sugeridas por dois rostos. No superior, à esquerda, um rosto masculino, de perfil, barbado, fixa um rosto feminino (?) que se encontra à sua frente, em breve apontamento. No inferior, no lado oposto, volta-se a ¾, inclina-se sobre o outro posicionado na horizontal. Com a mão direita limpa-lhe a fronte, a esquerda poisa-a sobre o peito unida à dela. O traço enérgico e denso transporta-nos para uma atmosfera de tensão e de dor. Laços e afetos revelados nos olhares e nos gestos que o artista surpreendeu e reteve, num impulso de perscrutar o mais íntimo de cada ser humano.


[1] Revista «Nortemédico» (2005), nº 1, janeiro – março, p. 39, entrevista dada a Patrícia Gonçalves.

[2] Participação de Mestre Adelino Ângelo no Programa da RTP “Praça da Alegria” em 23/02/2017. Disponível em: http://mestreadelinoangelo.com/videos.html, consultado em: setembro / 2020.

[3] Revista «Nortemédico» (2005), nº 1, janeiro – março, p. 36, entrevista dada a Patrícia Gonçalves.

[4] Idem, ibidem, p. 37.

ROSTOS [estudo]
Adelino Ângelo, 2009
Carvão s/papel
Dim. [Alt.] 28,5 x [Larg.] 19,5 cm
Doação António de Almeida Metelo Seixas
Museu de Lamego, inv. 8505

BIBLIOGRAFIA

Ângelo, Adelino – Biografia. Disponível em: http://mestreadelinoangelo.com/pdf/biografia.pdf [Consultado: setembro /2020]

 

Casa Museu Adelino Ângelo. Disponível em: http://mestreadelinoangelo.com/index.html [Consultado: setembro/2020]

 

Catálogo (2014) – As Emoções de Adelino Ângelo, Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina. Disponível em: http://www.apm.org.br/admin/arquivos/catalogo_adelino.pdf [Consultado: setembro/2020]

Gonçalves, Patrícia (2005) – Mestre Adelino Ângelo vai expor no Centro de Cultura e Congressos. “O verdadeiro artista é aquele que provoca”. In Silva, José Pedro Moreira da (Dir.) – Nortemédico. Revista da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, Ano VII, nº 1, pp. 34-39. Disponível em: http://nortemedico.pt/Revistas/NM22.pdf [Consultado: setembro/2020]

Jardim, Maria Antónia (2018) – Adelino Ângelo: Paisagens Golpeadas de Emoções In Jornal Tribuna de Macau, 28 de novembro, 2018. Disponível em: https://jtm.com.mo/opiniao/adelino-angelo-paisagens-humanas-golpeadas-de-emocoes [Consultado: setembro/2020]

Mestre Adelino Ângelo. Disponível em: http://mestreadelinoangelo.com/ [Consultado: setembro/2020]

Viana, Miguel (2013) – “Vieira do Minho. Casa Museu Adelino Ângelo faz dois anos” In Correio do Minho – 2013-07-21. Disponível em: https://correiodominho.pt/noticias/vieira-do-minho-casa-museu-adelino-angelo-fez-dois-anos/71206. [Consultado: setembro/2020]

Wikipedia – Adelino Ângelo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Adelino_%C3%82ngelo [Consultado: setembro/2020]

Georgina Pessoa | novembro 2020