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Pintura Mulher Rural

Depois, quando as forças deram

para andar, desci ao largo.

Depois, tomei os caminhos

 que havia e mais outros que

depois desses eu sabia.

E tanto já me afastei

dos caminhos que fizeram,

que de vós todos perdido,

vou descobrindo esses outros

 caminhos que só eu sei”[1]

Manuel da Fonseca

 

Mulher Rural – designação atribuída no documento de doação que traçou o caminho e deu nova “casa” à obra que se partilha em outubro. Primeiro mês do outono, ainda luminoso e ameno. Tempo de arar a terra, de semear e de colher. Imagem de uma vivência não longínqua, de que o quotidiano urbano e tecnológico nos distanciou e a obra nos lembra, numa evocação saudosista e sombria. A memória de uma ruralidade revelada pela luz coada de um sol poente, perdura no arvoredo e no muro em ruína que volteiam o casebre, na solidez dos seus blocos graníticos. É uma espécie de forte que teima em manter-se em pé, preenchendo o espaço com sua robustez e volumetria. Parece projetar-se dele, tocando-nos… puxando-nos para dentro de si. As pequenas frestas que lhe servem de janelas, são olhos que nos observam e interpelam. Gritam um silêncio, uma solidão que se adensa na mancha “vermelho sangue” do portal e no corpo dessa mulher vestida de negro. O xaile encobre-lhe o rosto e os pés, descalços, fundem-se com o chão, como se o caminho por onde devia regressar ao crepúsculo, já não existisse. Ou a fadiga e o abandono, que cruzam as margens do tempo, lhe retirassem a vontade do regresso. Em último plano as nuvens deixam ainda um pedaço de azul, réstia de esperança, antes que a noite chegue.

Obra de Eduardo Rosa Mendes (1906 -1983), artista ribatejano, nascido em Santarém, onde viveu e frequentou a então Escola de Regentes Agrícolas, hoje integrada no Instituto Politécnico da cidade. Aos 18 anos ingressa na carreira militar, à qual dedicou parte da vida, abandonando-a, definitivamente, em 1957 para se fixar no campo, na sua quinta de Joanicas, perto do Cartaxo. À prática da agricultura, gosto expresso na formação escolar, associa-lhe a da pintura, paixão que o acompanhou ao longo da vida. O “artista – lavrador”, como lhe chamou Raul Rego (VARZEANO, 1996), teria na morte precoce do irmão, um estímulo acrescido e motivador. Referimo-nos a Faustino da Rosa Mendes (1899-1935). Ator, escritor, artista talentoso e multifacetado “cultor da arte dedicou-se à pintura, sendo um aguarelista e um caricaturista com um estilo pessoal, original e sensível. […] Eduardo Rosa Mendes, influenciado pela pintura do irmão, começou a apresentar os seus trabalhos publicamente a partir de Outubro de 1936, para que a arte não morresse na família” (MOREIRA, 2015).

Só em 1953 expõe pela primeira vez, em Lisboa. Apesar da proximidade da capital, raras vezes lá ia, assim como poucas eram as ocasiões em que se ausentava do seu “refúgio”, deslocando-se lá, os que com ele privavam, ou pretendiam adquirir obras suas. Afastado que estava das vanguardas modernistas, assumiu como mestres João Saavedra Machado (1887-1950) e Mário Augusto (1895-1941), deixou-se influenciar pelos naturalistas paisagistas e pela pintura de ar-livre. “Pelos seus temas, as suas composições específicas, as suas tonalidades vibrantes e o seu estilo inconfundível, pressente-se nele mais uma afinidade ou uma empatia com o naturalismo de António Saúde (1875 – 1958), do seu Grupo de Ar Livre e dos seus discípulos, que tanta influência haviam de exercer na paisagem nacional da primeira metade do século XX.” (CUSTÓDIO, 2006)

É na intimidade da oficina, da sua quinta, que vai desenvolvendo uma técnica e uma linguagem muito próprias, inscrevendo em espontâneas pinceladas, numa paleta intensa, luminosa, composições de subtil simplicidade, ausentes de desenho subjacente. As suas paisagens, embrenhadas de um profundo sentido telúrico, inspiravam-se nos recantos da sua terra ou nos seus amplos horizontes, que transpunha através do óleo para o suporte, pelo ato criador do momento. É essa “natureza inscrita pela actividade humana, respondendo às necessidades do quotidiano, ao desassossego do espírito e ao prazer dos sentidos” (TELLES, 1994, apud: QUEIRÓS, 2006) que encontramos.

Nas muitas exposições que realizou ou em que participou foi por diversas vezes premiado, designadamente, pela Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA)[2], pelo Salão do Estoril, pela Casa do Ribatejo e pela Junta de Turismo da Costa do Sol.

Representado em várias coleções privadas, instituições[3] e museus nacionais[4] e estrangeiros[5], a sua pintura eternizaria a magia e o encanto, tão particulares do Ribatejo.

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[1] Manuel da Fonseca (Maltês, I – Planície, 1941).

[2] 1940 – Menção Honrosa; 1951 – 3ª medalha de desenho do Salão de Inverno; 1954 – 2ª medalha de pintura a óleo do Salão da Primavera: 1959 – 1ª medalha de pintura a óleo do Salão da Primavera.

[3] Câmara Municipal do Cartaxo; Câmara Municipal da Figueira da Foz.

[4] Casa-Museu Braamcamp Freire, Santarém Museu Municipal de Torres Novas; Museu Municipal de Vila Franca de Xira; Museu de Lamego.

[5] Arquivo Histórico da Arte Moderna de São Paulo, Brasil; Museu Vasco da Gama em Goa, Índia; Museu do Vaticano.

MULHER RURAL

Eduardo Rosa Mendes (1906-1983)

1960 -1970

Óleo s/ platex

Dim.: [Alt.] 38 x [Larg.] 55 cm

Doação de António de Almeida Metelo Seixas

Inv. ML 8488

BIBLIOGRAFIA

CUSTÓDIO, Florindo (2006) – No centenário do nascimento do pintor. Catálogo. Santarém: Câmara Municipal de Santarém.

MOREIRA, Maria Teresa do Rosário Lopes da Cruz (2013) – Todos têm Direito à Cultura. A Dinâmica Cultural da Cidade de Santarém (1930-1959). Tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Disponível em: https://run.unl.pt/bitstream/10362/13831/1/teresamoreira.pdf  [Consultado em: setembro – outubro 2021].

MOREIRA, Tereza Lopes (2015) – Memórias da Cidade – Faustino da Rosa Mendes, um artista além do seu tempo. “Correio do Ribatejo”. Disponível em: http://correiodoribatejo.com/memorias-da-cidade-faustino-da-rosa-mendes-um-artista-para-alem-do-seu-tempo/  [Consultado em: setembro – outubro 2021].

PAMPLONA, Fernando de (2000) – Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses. 2.ª Edição (edição atualizada), vol. IV, Porto: Livraria Civilização Editora, p. 108.

QUEIRÓS, Margarida (2006) – A Pintura da Paisagem: uma matriz para a observação, reflexão e aprendizagem. “Cadernos de Geografia”, n.º24/25,Coimbra: FLUC, pp. 241-251. Disponível em: https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/40341/1/A%20pintura%20da%20paisagem.pdf [Consultado em: setembro – outubro 2021].

VARSEANO, José (1996) – Correio das Lembranças. Rosa Mendes. “Figuras Ribatejanas – Santarém” (Publicado no Correio do Ribatejo de 8 de março 1996). Disponível em: http://memoriasdomeubairro.blogspot.com/ [Consultado em: setembro – outubro 2021].

Nota de agradecimento

À Câmara Municipal de Santarém, à Dra. Inês Barroso e Dra. Inês Martins pela partilha de informação relativa ao pintor Rosa Mendes.

Georgina Pessoa | outubro 2021