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Pintura Mulher e Criança

MULHER E CRIANÇA

 

“Oh terra, cheia de árvores e minha

Eu sou tua filha […] “

“Amo o fogo como o meu próprio coração.

Ventos grandes e pequenos baloiçam a menina cigana,

levam-na para longe pelo mundo.

A chuva limpou as minhas lágrimas,

o sol, pai dourado dos ciganos, aqueceu-me […]”

“As crianças ciganas cantam,

mesmo que sofram, mesmo que tenham fome,

saltam, brincam e dançam como a floresta lhes ensinou […]”[1]

(Papusza – Bronislawa Wajs – 1908-1987)

 

Papusza cantou ao som da harpa a vida cigana na sua longa errância nómada. A língua é a sua pátria e a história a extensão da memória dos ancestrais, perpetuada em narrativas orais. As suas músicas, sem práticas de notação, transmitidas da mesma forma livre e espontânea, expressam o que lhe vai na alma e no coração. São hinos de alegria e lamento. Quanta da sua sonoridade, sentimos em reconhecidos compositores como Brahms (1833-1897) ou Liszt (1811-1886)! São estes acordes em forma de cor e luz que emanam desta pintura, numa paleta onde os ocres se misturam com os azuis. O céu une-se à terra em pinceladas largas e soltas, transforma-se em rio lavando o chão e as mágoas. Deixa para trás o desalinho das barracas, esteadas nas frágeis varas e nas ilusórias coberturas. É a alma cigana que se ergue, como um templo, no corpo desta mulher dominando magistralmente o primeiro plano e toda a composição. Na determinação dos punhos que apoia na cintura, na doçura convertida em sorriso aberto dirigido à criança, que lhe agarra a saia e se encosta ao seu ventre grávido. A força dessa diagonal que os une e o diálogo que o seu olhar estabelece com o observador – enigmáticos elos que os nós e os laços tecem.

Na nudez do corpo menino, na expressiva limpidez do seu rosto, o mistério, o orgulho, a resistência do povo cigano. Na presença do “fiel amigo” o registo do instinto de proteção, da coesão do grupo, da obediência e da observação de um ancestral e austero código de conduta.

Obra de mestre Adelino Ângelo (1931-)[2], artista de personalidade irreverente e provocadora como ele próprio se assume “O verdadeiro artista é aquele que provoca. Razão por que denuncio com a minha pintura o rosto da sociedade em que vivo. Nesse sentido sou um provocador”[3]. Diz-se também um “desassossegado e andarilho[4]. A arte foi sempre aquele apelo irresistível, que o moveu desde criança, lhe soprou nas asas e o fez voar. A prática do desenho era um gosto, e os seus esquiços demonstravam uma qualidade, cuja venda lhe permitiu custear a estada em Lisboa e a formação na Escola Superior de Artes, a partir dos seus 17 anos. Contrariando a vontade dos que, certamente, prefeririam que seguisse as pegadas do pai, juiz conservador do registo predial, ou outra carreira menos incerta que a das artes. No percurso profissional conta-se o de designer, na sua passagem pela indústria têxtil das sedas (1957 -1961) e a atividade docente, exercida na Escola Comercial e Industrial Francisco Holanda, em Guimarães (1961-1974). Aqui realizou e deixou vários retratos, de muitas personalidades representativas da história antiga e do Portugal contemporâneo. Algumas de destacadas figuras do Estado Novo que, no contexto pós 25 de Abril, lhe valeram alguns dissabores como a contestação dos colegas e a condição de migrante. Espanha foi o país que primeiro o acolheu e reconheceu, todavia, seria um viajante de muitas paragens e nesse “andarilhar” seria também uma espécie de nómada e um observador atento. “Aprender a ver é a primeira arte do mundo”[5], afirma. Se o retrato é um tema recorrente na sua obra, a vida da etnia cigana são a sua grande inspiração. Numa espécie de sentimento de irmandade, de identidade partilhada.

Particularmente sensível aos males sociais e aos dramas humanos, que soube perscrutar no mais fundo de cada um. Seres excluídos e indigentes, empurrados para uma marginalidade que lhe foi marcando a expressão e a forma de vida e que Adelino Ângelo transpõem para as suas telas como quem tem “o prazer de deambular nos corpos das mais desvairadas gentes, como se estes fossem o seu lar, brincando com as contradições do ser humano: anjos e demónios ao mesmo tempo!” (Jardim, 2018).

A sua obra foi objeto de muitas exposições em Portugal, Espanha, França, Brasil, Estados Unidos, da análise e estudo de autores como A. Garibaldi, Francisco Pablo, Sérgio Mourão, Antónia Jardim, Fernando António Batista-Pereira, entre outros e de reconhecidas homenagens. Muitas são as ilustrações da sua autoria, dispersas por várias obras literárias. Informação que se associa a biografia pormenorizada do autor, inscritas no site da Casa Museu Adelino Ângelo[6], em Vieira do Minho, instalada no solar de família onde o artista nasceu, hoje propriedade do município.

Destacamos como peça do mês de dezembro, este óleo sobre tela de mestre Adelino Ângelo, datado de 1971, com a temática dominante na sua obra. O universo cigano, aqui representado numa expressão maior: a mulher, a maternidade, o amor, ponte para o espírito da quadra festiva que se avizinha, tão pertinente e necessário neste contexto assolado por tantos vírus sem rosto, numa sociedade que enferma de perigosos males, urge sarar. Porque o tempo é tão fugaz e a vida é muito mais.

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[1] Da obra de Bronislawa Wajs (1908-1987) – poetisa cigana de origem Romena, publicada, reconhecida e galardoada com vários prémios. Considerada mahrime (impura) foi expulsa e condenada ao ostracismo pela sua comunidade. Tradução livre de alguns versos das obras: “Terra eu sou tua filha”; Canção cigana”, “Canção das florestas”.

https://revistasinuosa.wordpress.com/2013/03/13/uma-saia-com-todas-as-flores-do-mundo-os-versos-de-bronislawa-wajs/https://www.hojanegra.com/poemas-de-bronislawa-wajs-papusza-la-primera-poeta-gitana-en-ser-publicada/.

[2] Museu de Lamego (2020) – Peça do mês de novembro: Rostos e 12 meses 12 peças 2020. O Desenho. /11 / Rostos.

Disponível em: https://museudelamego.gov.pt/rostos-de-adelino-angelo-em-destaque.

[3]  Revista «Nortemédico» (2005), nº 1, janeiro – março, p. 36, entrevista dada a Patrícia Gonçalves.

[4] Revista «Nortemédico» (2005), nº 1, janeiro – março, p. 36, entrevista dada a Patrícia Gonçalves.

[5] Participação de Mestre Adelino Ângelo no Programa da RTP “Praça da Alegria” em 23/02/2017. Disponível em: http://mestreadelinoangelo.com/videos.html, consultado em: setembro / 2020.

[6] http://www.mestreadelinoangelo.com/.

http://www.mestreadelinoangelo.com/biografia.html.

MULHER E CRIANÇA [título iconográfico]

Adelino Ângelo

1981

Óleo s/ tela

Dim.:[Alt.] 71 x [Larg.] 56 cm

Doação António de Almeida Metelo Seixas

Inv. 8487 ML

BIBLIOGRAFIA

CULTURE. pl. – Bronisława Wajs, or Papusza. Disponível em: https://culture.pl/en/artist/papusza [Consultado: dezembro 2021].

DOURADO, Gustavo Fontele (2013) – Papusza. Disponível: https://naosaoasimagens.wordpress.com/2014/09/05/papusza-2013/ [Consultado: dezembro 2021].

GONÇALVES, Patrícia (2005) – Mestre Adelino Ângelo vai expor no Centro de Cultura e Congressos. “O verdadeiro artista é aquele que provoca”. In SILVA, José Pedro Moreira da (Dir.) – “Nortemédico”. Revista da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, Ano VII, nº 1, pp. 34-39. Disponível em: http://nortemedico.pt/Revistas/NM22.pdf [Consultado: setembro/2020].

https://silo.tips/download/mestre-adelino-angelo-vai-expor-no-centro-de-cultura-e-congressos [Consultado: /2021].

JARDIM, Maria Antónia (2018) – “Adelino Ângelo: Paisagens Golpeadas de Emoções” In Jornal Tribuna de Macau, 28 de novembro 2018. Disponível em: https://jtm.com.mo/opiniao/adelino-angelo-paisagens-humanas-golpeadas-de-emocoes [Consultado: dezembro 2021].

MENDES, Maria Manuela (1998) –  Etnicidade Cigana, exclusão social e racismos. Disponível em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1458.pdf [Consultado: dezembro /2021].

MOTA, M. L. Silva (s/d) – Bronislawa Wajs – Papusza. Textos. Biografias. Disponível em: https://www.silviamota.com.br/visualizar.php?idt=5858959.

PESSOA, Georgina (2020): Rostos. In: O Desenho. /11. Museu de Lamego. Disponível em: https://museudelamego.gov.pt/rostos-de-adelino-angelo-em-destaque [Consultado: dezembro /2021].

VIANA, Miguel (2013) – “Vieira do Minho. Casa Museu Adelino Ângelo faz dois anos” In: Correio do Minho – 2103-07-21. Disponível em: https://correiodominho.pt/noticias/vieira-do-minho-casa-museu-adelino-angelo-fez-dois-anos/71206 [Consultado: dezembro /2021].

Georgina Pessoa | dezembro 2021