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Pintura Margem do Rio

12 meses 12 peças_ Pintura_Margem do Rio

Da coleção de desenho e pintura de António Metelo Seixas, doada ao museu em 2013, faz parte um óleo sobre madeira de António Carneiro (1872 – 1930). Artista peculiar, na obra e no percurso, de personalidade introspetiva e solitária, como afirmou no soneto que escreveu em 1928: «E na clausura onde vivo e penso, / Estranho a estéreis lutas ao que é vão, / Não me oprime de morte o desalento: / Vitorioso no que sonho e intento, / Bendigo a criadora solidão” (apud Castro, 1997, p.11). Da infância, em Amarante, carregou as marcas desta solidão e de uma orfandade profunda que lhe vinha da mãe Francisca, exposta da roda de São Gonçalo e da morte precoce desta, tinha ele 7 anos de idade. O abandono do pai, ido para o Brasil, certamente lhe reforçou um sentimento de ausência que marcou a sua vida e obra, apesar do posterior reencontro (1895).

Casado com Rosa e pai atento, abraça devotamente a sua arte, onde se expõe. Assim sucede nos autorretratos riscados a carvão, gravados a água-tinta ou pintados em aguarela ou óleo, como bem nota Vila Moura: “no Ecce Homo é a sua própria imagem transfigurada em Cristo” (Vila Moura, 1931, p. 17, apud Castro, 1997, p.11). Tal a identidade estabelecida com uma espécie de calvário que foi cruzando o seu caminho, traduzida nas vestes monacais que por vezes trajava. À presença dessa solidão somam-se os estigmas do menino asilado[1]. É ao cuidado da Misericórdia do Porto que conclui a instrução primária e os estudos na Academia Portuense de Belas Artes, onde faz o curso de Desenho Histórico. Frequenta ainda o de Escultura, que abandona após a morte de Soares dos Reis (1847-1889), para ingressar no de Pintura, concluído depois de ter saído da Instituição (1892). Aqui, o “Mongezinho de Nova Sintra”, como era apodado, ganhou o reconhecimento de colegas e de mestres como Marques de Oliveira (1853-1927) ou João Correia (1822-1896). Foi, como bolseiro, para Paris, em 1897, com o apoio de amigos como Alberto de Oliveira e do mecenato do marquês da Paria de Monforte. Mais tarde, seria Domingos Rufino a colmatar as suas constantes dificuldades financeiras e custear a construção do seu ateliê. Sonho só realizado em 1925[2].

O ambiente que este fim de século aportou à “cidade luz” era intenso e estimulante, fazendo convergir a inquietação ligada ao diálogo entre as ciências e a técnica e a filosofia e as artes. A sua permanência em Paris nunca lhe desviou o foco de uma aprendizagem disciplinada e atenta, sem dispersões ou aventuras. Atitude que pautaria o seu comportamento simples e austero. Na Academia Julian foi discípulo de Paul Laurens (1838-1921) e Benjamin Constant (1845-1902). Deixou-se contagiar “pela força expressiva de Rodin, o humanismo de Carrière [….] pelo aspecto esfumado e delicado das suas composições, […] o hieratismo pálido de Chavannes “ (Castro, 1997, 19). Voltará outras vezes à capital francesa para visitar os museus, as livrarias, as igrejas… para ver e aprender. Com o mesmo propósito viaja até Itália, em 1899, destino de eleição para um encontro com os clássicos do renascimento, num contraponto entre a modernidade parisiense e a evocação do passado. Em todas as viagens que realiza, incluindo ao Brasil, em 1914 e em 1929, ou no quotidiano do seu país, assume sempre a mesma atitude reservada, voltada para o seu universo interior, eivado de espiritualidade e misticismo, mantendo-se distante bulício político que marcou Portugal e o mundo, nos finais do século XIX e primeiras décadas do século XX

Em Teixeira de Pascoais e no restrito grupo de amigos ligados à «Renascença Portuguesa»[3] (movimento centrado na reflexão de conceitos como a nacionalidade, a universalidade e religiosidade), encontra eco das suas inquietações, sentimentos saudosistas e nostálgicos, que caraterizam a sua produção filosófica e poética, onde a arte preconiza a vida, num elo profundo entre a natureza e o indivíduo.

A «socialização» de António Carneiro decorre da sua participação nas revistas A Águia[4], da qual foi diretor artístico, e Geração Nova; das exposições individuais ou coletivas em que participa e das estadas em casa de amigos – Ancede ou Noêda, no Douro, Belinho, no Minho, Matosinhos, Leça da Palmeira e Figueira da Foz –  convertidos em espaços de tertúlia, inspiração e trabalho, substituindo a ausência de um ateliê.

As obras do início da sua atividade (c.1890), como os retratos (amigos, crianças ou individualidades), são apresentadas sobre fundos de paisagens que, posteriormente, se autonomizam, definidas por pequenas pinceladas e uma luminosidade criada pela gradação da mancha. Na mudança de século, obras como a Fonte do Bem (1899), Ecce Homo (1991) ou o tríptico A Vida (1899-1901) transportam-nos para “uma relação com a atitude existencial do autor” (Santos, 1990, 203), traduzindo a empatia e a apreensão da gramática e dos valores simbolistas. Já “Os anos 10 e os inícios dos anos 20 assistem a uma transferência dos valores do símbolo para outras esferas da produção, nomeadamente para a paisagem” (Castro, 1997, 29), temática reincidente nas obras dos artistas da época, gratas ao mercado artístico e ao universo expositivo. Demarcando-se da visão naturalista dos contemporâneos e da pintura “de ar livre”, o artista simplifica, suaviza contornos e rasga os espaços. Progressivamente, dissocia-se das formas objetivas para criar uma atmosfera concetualizada, que traduz a sua sensibilidade e liberdade criadora. Fora de convenções desenvolve uma linguagem estética plural, com uma componente poética e filosófica que fará de cada obra uma criação única, fora de estereótipos estilísticos. Apreciado ou contestado, na poesia, na ilustração, no desenho ou na pintura, a sua obra emana autenticidade, depuração formal e um acentuado conteúdo metafísico.

A pintura Margem do rio habita as suas reservas do museu, convivendo, lado a lado, com outras obras, de outros autores e de outras épocas. Sem data ou legenda, a composição remete-nos para o início do século XX. Nas margens recortadas de um rio, flutuam pequenos botes, aguardando nova jorna, enquanto as lavadeiras se vergam, branqueando a roupa. Os tons telúricos das orlas contrastam com os cinzas metálicos do rio e o céu nebuloso espelhado na superfície lisa das águas. Os breves apontamentos das lavadeiras, em primeiro plano, remetem-nos para o aglomerado urbano, onde se situam as casas, o espaço doméstico e as vivências destas mulheres, que sentimos árduas e pesadas, como a atmosfera carregada de um dia sem sol.

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[1] António Carneiro esteve no Asilo do Barão e Nova Sintra, pertencente à Santa Casa da Misericórdia do Porto, de 1879 a 1890.

[2] Após a sua morte, em 1930, o edifício passaria para a posse dos filhos, Carlos, também pintor, e Cláudio prestigiado compositor. Hoje musealizado constituiu a Casa-Oficina António Carneiro (Porto).

[3] Movimento cultural surgido no Porto. Dele fizeram parte Leonardo Coimbra, Aarão de Lacerda, Mendes Correia, Jaime Cortesão, Vila Moura, entre muitos outros. É António Carneiro que risca o ex-libris da revista, numa alusão ao “pensador” de Rodin.

[4] Publicação que dava voz às reflexões, debates e preocupações filosóficas e literárias do grupo da “Renascença…”.

Pintura_Margem do Rio

MARGEM DO RIO

António Carneiro

Séc. XX (inícios)

Óleo sobre madeira

Doação António de Almeida Metelo Seixas

Museu de Lamego

Inv. ML 8497

BIBLIOGRAFIA

AMORIM, José Carlos de Castro (2012) – António Carneiro. Pluralidade e desígnios de um Ilustrador, Porto: Dissertação apresentada a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, vol. I. Disponível em https://core.ac.uk/download/pdf/143397821.pdf [Consultado: fevereiro de 2021].

SANTOS, Alfredo Ribeiro dos (1990) – A Renascença Portuguesa. Um Movimento Cultural Portuense, Lisboa: Fundação Eng. António de Almeida. Disponível em: http://ric.slhi.pt/docs/Extras/0000000316.pdf [Consultado: fevereiro de 2021].

CASTRO, Laura (1997) – António Carneiro. Lisboa: Edições Inapa.

ESCOLA SUPERIOR DE BELAS ARTES DO PORTO – Processo do Aluno António Teixeira Carneiro Júnior. Disponível em: https://repositorio-tematico.up.pt/bitstream/10405/1235/5/Processo_Carneiro_Junior.pdf [Consultado: fevereiro de 2021].

FRANÇA, José-Augusto (1967) – A Arte em Portugal no Século XIX, vol. II, Lisboa: Betrand Editora, pp. 228-233.

PAMPLONA, Fernando de (1943) – Um Século de Pintura e Escultura em Portugal (1830-1930), Porto: Ed. Livraria Tavares Martins, pp. 172-178.

PAMPLONA, Fernando de (2000) – Dicionário de pintores e escultores Portugueses ou que trabalharam em Portugal, vol. II, 2.ª edição, Barcelos: Livraria Civilização, pp. 53-55.

SANTOS, David (2001) – 1900-1940. Modernismo e Vanguarda nas coleções do Museu do Chiado, Lisboa: Instituto Português de Museus.

TAVARES, António Manuel Lopes (Coord.) (2011) – António Carneiro revisitado na Galeria de Benfeitores da Santa Casa da Misericórdia do Porto, Porto: Universidade do Porto. Disponível em: https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/19648/1/Ant%C3%B3nio%20Carneiro%20h%C3%A1%20110%20anos%20atr%C3%A1s.pdf [Consultado: fevereiro de 2021].

Georgina Pessoa | março 2021