Horário: Encerrado ao público por motivo de obras de reabilitação do edifício

Pintura Educação da Virgem

EDUCAÇÃO DA VIRGEM

“Pela janela pintada sobre a tela ilusionista vemos aquilo que se deve ver – a natureza das coisas mostradas na sua ligação.”[1]

A “Paisagem nas Coleções do Museu”, temática que acompanhará a habitual seleção e partilha mensal de uma peça do acervo do museu, parte de uma abordagem onde o olhar recai sobre a presença da paisagem, quer esta constitua a dominante da obra, parte integrante ou mero elemento ornamental. Privilegiando a semiótica da imagem e o caráter icónico da paisagem enquanto centro do discurso ou como extensão do mesmo.

Destacamos em janeiro “Educação da Virgem”, pintura a óleo sobre cobre, atribuída à oficina de Abraham Willemsen (Antuérpia, C. 1610-1672), assim como outras três pinturas: Abraão e os anjos; Sacrifício de Isaac; Repouso na Fuga para o Egito, com santas (Falcão, 2018:25), de idênticas características, onde a paisagem confere uma envolvência de acentuado destaque e simbolismo relativamente ao tema central das obras.

Na obra em análise representa-se a “Educação da Virgem”, ideia recuperada dos textos apócrifos, cujas narrativas se vão integrando nas práticas cultuais da igreja contrarreformista, assimiladas nos formulários iconográficos dos artistas. Inspirada numa composição de Peter Paul Rubens (Siegen, Alemanha,1577- Antuérpia, Bélgica,1640), a pintura alude à educação esmerada da Maria, feita no templo, onde permaneceu até aos doze anos. Numa composição onde a disposição dos intervenientes se inverteu e as proporções rubenianas se alteraram, reduzindo, aqui, a cena ao canto inferior direito da lâmina, num enquadramento paisagístico que preenche todo o espaço.

Em frente de um templo, inscreve-se a cena que define a mensagem preponderante da obra: a Virgem encontra-se em pé, ligeiramente reclinada sobre a mãe, sentada, com um livro aberto no regaço. Sta. Ana apoia a mão direita no ombro de Maria. Nos gestos de proximidade entre ambas, circunscreve-se uma espécie de circulo onde passado e futuro se unem. No chão, um cesto com objetos de costura corrobora a cuidada e atenta educação feminina, que não foi descurada pela aprendizagem das Sagradas Escrituras. Por detrás, São Joaquim, reclinado sobre uma mesa coberta por rico brocado, sustenta na mão um livro aberto, mas o seu olhar volta-se em direção ao anjo, que se aproxima com a palma e a coroa de flores.

Esta narrativa tem por cenário uma paisagem com arquiteturas e árvores frondosas, onde se observa um jardim, em que intensos focos de luz vão iluminado, e os pormenores se revelam a cada olhar. O lajeado do chão, os degraus, as colunas, os pedestais encimados por esculturas de vulto, as roseiras, os canteiros quadriculados… Ao centro a fonte sobrepujada por Neptuno. Os majestosos renques de árvores, sobrepondo-se aos pequenos muros e o edifício ao fundo, circunscrevem e fecham o espaço, remetendo-nos para a ideia medieval do Hortus conclusus[2]. Alegoria ao seu nascimento, crescimento e conceção sem mácula, reservada e afastada de todos os agentes corruptíveis do mundo terreno, mantendo a pureza original, digna de conceber o Filho de Deus.

A paisagem funciona, aqui, como um circulo maior, mais abrangente, onde o primeiro se encerra. Sincretismo de uma unidade temporal e cultural onde se integram a gramática e valores do paganismo e da tradição crista, comunicação teológica e cumprimento da missão catequética. Como afirma Andrews “O cenário natural pode dar substancia contextual e força metafórica que corrobora o assunto e a narrativa humana ou divina”[3]. (ANDREWS,1999:28)

Nessa estreita relação entre natureza e paisagem, homem e cultura onde “fatores que não estão «à vista» são integrados no que vemos conferindo um sentido além do meramente ótico e retiniano”[4] (MONTEIRO, 2016:14,) onde cada período histórico formaliza os seus próprios códigos, significantes e significados.

Alusão à educação da Virgem na afirmação do primado da educação religiosa e das virtudes cristãs. Forma inteligível, humanizada, próxima e permeável da mensagem à dimensão do crente.

Proveniente do paço episcopal, teria pertencido ao bispo de Lamego D. Nicolau Joaquim Torel da Cunha Manuel (1771-1772), segundo testemunho, de João Amaral (Falcão, 2018:46), primeiro diretor do museu, a quem este, em boa medida, deve a sua constituição e organização.

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[1] CAUQUELIN, 2008:64

[2] HORTUS CONCLUSUS – termo significa literalmente “jardim fechado” tendo sido usado originalmente como referencia à Virgem, com o objetivo de salientar a sua pureza e o milagre do nascimento virginal.

Metáfora que viria a ser assimilada e traduzida na realidade física pela projeção e construção de jardins fechados.

[3] ANDREWS, M (1999) – Landscape in Western Art. Oxford Universiti Press, p. 28.

[4]  MONTEIRO, Luís Ricardo Nunes da Costa (2016) – Reinventar a paisagem na era digital. Tese apresentada à Universidade Católica para a obtenção de grau de Doutor em Ciência e Tecnologia das Artes. p.14

EDUCAÇÃO DA VIRGEM

Atribuído à oficina de Abraham Willemsen, segundo P. P. Rubens

c. 1650-1675

Antuérpia

Óleo sobre cobre

100,7 x 75,4 cm [com moldura:124,4 x 99,7 cm]

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 22

BIBLIOGRAFIA

ANDREWS, M (1999) – Landscape in Western Art. Oxford Universiti Press.

ANJOS, pe. Vidência dos (2022) – Hortus Conclusos. Disponível em: https://stringfixer.com/pt/Hortus_conclusus [consultado em: janeiro de 2022].

CAUQUELIN, Anne (2008) – A invenção da paisagem. Paris: Arte e Comunicação. Edição 70.

FALCÃO, Alexandra (2018) – A Marca de Rubens. In: Remodelação do Salão Nobre do Museu de Lamego. Lamego: Museu de Lamego, Direção Regional da Cultura do Norte. p. 24-47. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/13q2vjHG7AiGNAuw7b9xv_0nKd0oEOzO_/view [consultado em: janeiro de 2022].

MONTEIRO, Luís Ricardo Nunes da Costa (2016) – Reinventar a paisagem na era digital. Tese apresentada à Universidade Católica para a obtenção de grau de Doutorem Ciência e Tecnologia das Artes. Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.14/21593 [consultado em: janeiro de 2022].

RONCHETTI, Costanza (2009) – Do Jardim Místico ao Jardim Profano. Para uma leitura dos jardins medievais portugueses. Revista de História da Arte, nº 7, pp. 264-281.Disponível em:

https://run.unl.pt/bitstream/10362/16663/1/RHA_7_Varia_ART_4_CRonchetti.pdf [consultado em: janeiro de 2022].

TAQUENHO, Maria das Mercês de Carvalho Daun e Lorena (2013) – Pintura Flamenga em Portugal. Os retábulos de Metsys, Morrison e Ancede; estudo técnico e material. Tese apresentada à Universidade de Évora para a obtenção de Grau de Doutor. Disponível em: http://hdl.handle.net/10174/16088 [consultado em: janeiro de 2022].

Georgina Pessoa | janeiro 2022