Horário: Todos os dias. Das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 18h00

Pintura Claustro da Sé Velha de Coimbra

CLAUSTRO DA SÉ VELHA DE COIMBRA

 

Destacamos, em julho, uma aguarela sobre cartão, de Alberto de Sousa (1880-1961). O claustro da Sé Velha de Coimbra, na interpretação do autor, na qua a escolha do tema e a excelência da técnica carreiam toda a carga simbólica do lugar. Balizado por dois pilares, abre-se o espaço para o interior do templo românico – gótico[1]. Apercebemos-lhe a estrutura quadrangular, o dinamismo dos arcos geminados de volta perfeita, enquadrados por arcos quebrados, a diversidade compositiva dos óculos que lhe preenchem o tímpano e os volumétricos contrafortes, que lhe vão marcando o ritmo; ou os capitéis de inspiração vegetalista “reveladora de um momento em que importava convocar também a natureza ao espaço religioso” (Craveiro, 2011, 132) e a fonte entre os canteiros relvados, o peso das abóbadas das galerias e a torre-lanterna encimada pelo zimbório, sob um céu azul, intenso e límpido, a remeter para um soalheiro dia de verão. Sendo um espaço onde se privilegiava a interioridade, a reflexão e o diálogo com Deus, dimana da composição um imenso silêncio e solidão, que a ausência da presença humana acentua.

Mandada erigir no século XII, durante o reinado de D. Afonso Henriques, a Sé Velha de Coimbra constitui uma referência do património arquitetónico português, à qual não foi alheio Alberto de Sousa, cuja obra reflete, em grande medida, a preocupação no registo do património, da história, das paisagens, dos costumes e tradições do povo português, fazendo da ilustração, do desenho e da aguarela meios privilegiados de expressão e intervenção.

Com efeito, para além das inúmeras exposições em que participou, colaborou igualmente em várias publicações, revistas e jornais nacionais e estrangeiros, designadamente, o António Maria; Pontos nos ii; Paródia; Serões; Ilustração Portugueza; O Mundo; Novidades; Vanguarda; República; A Capital; L’Illustration ou Illustrated London Mews, entre outros. Com Sebastião Pessanha e Vergílio Correia é responsável pela Terra PortuguezaRevista Ilustrada de Arqueologia Artística e Etnografia[2] (1916-1927). São de Vergílio Correia as seguintes linhas sobre Alberto de Sousa:

“Colorista insigne, tratando as aguarelas com um à vontade […] escolhendo para as suas composições os assuntos descurados que o regionalismo provincial e os motivos architetonicos do passado tão prodigamente oferecem a quem os procura, ele consegue ser hoje no nosso paiz o artista que melhor representa a já impetuosa corrente dos que buscam motivos de Arte na História, Arquitectura e Etnografia de Portugal.”[3]

A mesma convicção e empenho lhe perscrutamos na ilustração de Pátria Portuguesa, de Júlio Dantas (1914), na colaboração com a Editora Lello, para a qual desenha as muitas figuras que ilustram o Dicionário, no estudo que realizou sobre a gravura e o trabalho de gravadores estrangeiros em Portugal (século XVI-XVIII), ou do traje popular português (séculos XVI – XIX), assim como no álbum Quadros da História de Portugal (1917), que partilha com o seu mestre Roque Gameiro, num trabalho coordenado por Chagas Franco e João Soares. “Trabalho com propósitos didácticos […] reveste-se de um extraordinário interesse histórico e artístico. (Abreu, 2005). Enquadradas, também, em propósitos educacionais[4], as “Missões Estéticas de Férias” contaram com a presença e participação ativa de Alberto de Sousa, tendo assumido a direção da 19.ª Missão, realizada em 1956, em Almada, no Convento dos Capuchos.

Nasceu e morreu em Lisboa. Formou-se na Escola de Belas-Artes (1893) e estudou modelo vivo no Grémio Artístico, onde expõe, pela primeira vez, em 1901, e na Sociedade-Nacional de Belas Artes. Discípulo de Manuel de Macedo (1839-1915) e de Nicola Bigaglia (1841-1908), teria em Roque Gameiro (1864-1935) o seu mestre de referência, com quem começou a trabalhar, apenas com 16 anos (1897), no ateliê de Desenho Industrial, que este dirigia na Companhia Nacional Editora. Valer-lhe-iam, justamente, o Prémio Roque Gameiro do SNI (1946), entre outras medalhas e títulos, o preito de muitos. Quer em âmbito escolar, iniciativa própria ou por solicitação de outrem, Alberto de Sousa, percorreu o país, deixando-se tocar pela alma das gentes e dos locais.

Legou-nos na transparência das suas aguadas e nos subtis jogos de luz/sombra a presença de uma portugalidade viva e a possibilidade de a revisitar e de participar nela.

“A aguarela que já ilustrara entre nós os nomes de Ramalho, de Hogan, de Gameiro, de Casanova, conta em Alberto de Sousa – impressionista surpreendente, naturalista vigoroso, persuasivo evocador dos monumentos e dos costumes populares portugueses – um dos seus cultores mais sinceros, mais ardentes, mais pessoais. (…) possui uma visão educada porque sabe ver e observar […] É que para ele, como para o velho Puvis de Chavannes, ‘o único repouso é o trabalho’; o resto é apenas fadiga.”[5]

Em agosto de 2020, demos conta de um esquiço que integra a coleção de Desenho[6] do acervo do museu, também do risco de Alberto de Sousa, numa apresentação mais biográfica do artista, para o qual se remete.

___

[1] A construção do claustro teve início em 1218, sob o patrocínio do carismático bispo D. Pedro Soares (1192-1232). Craveiro, Maria de Lurdes (2011) – A Sé velha de Coimbra, Coimbra, Ed. Direção Regional de Cultura do Centro, pp.70-82.

[2] Disponível em: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/TerraPortuguesa/TerraPortuguesa.htm

[3] Correia, Virgílio (1914) – O Aguarelista Alberto de Sousa. In : A Águia. 2ª série, vol. V, N.º 26 | fev. 1914, pp. 55-57.

[4] Ainda que não lhe sejam alheias as intenções de formatação de consciências e controle dos perigos que representavam as vanguardas estéticas.

[5] Dantas, Júlio (1919) – Crónica Artistica. In: Atlântida, 1919,  nº 35-36, pp. 1080 –1082.

Disponível em: http://ric.slhi.pt/visualizador?id=09530.033&pag=110.

[6] Disponível em: https://museudelamego.gov.pt/nova-revista-um-ano-um-tema.

CLAUSTRO DA SÉ VELHA DE COIMBRA

Alberto de Sousa (1880-1961)

1920

Aguarela sobre cartão

Dim.: [Alt.] 56 x [Larg.] 44,3 cm

Legado Ana Maria Pereira da Gama

Inv. ML 7825

BIBLIOGRAFIA

Aberto de Souza (1880-1961): os rostos da República na imprensa da época. Disponível em: http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/RecursosInformativos/ActasdeColoquiosConferencias/textos/AlbertoSouza.pdf.

ABREU, Maria Lucília (2005) – “Quadros da História de Portugal”. In: Roque Gameiro. O Homem e a Obra. Ed. ACD Editores. Disponível em: http://tribop.pt/TPd/01/70/Quadros%20da%20Hist%C3%B3ria%20de%20Portugal.

CORREIA, Virgílio (1914) – “O Aguarelista Alberto de Sousa”. In: A Águia. 2ª série, vol. V, N.º 26 | fev. 1914, pp- 55-57. Disponível em: http://ric.slhi.pt/A_Aguia/visualizador?id=09613.006.002&pag=27#

CRAVEIRO, Maria de Lurdes (2011) – A Sé velha de Coimbra, Coimbra, Ed. Direção Regional de Cultura do Centro. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/144050246.pdf

FRANÇA, José-Augusto (1967) – A Arte em Portugal no Século XIX. Vol. II. Lisboa: Betrand Editora.

FRANÇA, José-Augusto (1984) – A Arte em Portugal no Século XX (1811-1961). Lisboa: Betrand Editora.

PAMPLONA, Fernando de (1943) – Um Século de Pintura e Escultura em Portugal (1830-1930). Porto: Ed. Livraria Tavares Martins.

PORTELA, Artur (1982) – Salazarismo e Artes Plásticas. Lisboa, Ministério da Educação.

Georgina Pessoa | julho 2021