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Pintura Basilica de Torcello

A Casa na Pintura do Museu de Lamego

Basilica de Torcello

Constituindo parte do legado de Ana Maria Pereira da Gama (2013), a obra destacada em janeiro, uma aguarela sobre papel, tem assinatura do italiano Nicola Bigaglia (1841-1908). “Nasce em Veneza no seio de uma família de arquitectos, e é nessa cidade que desenvolve os primeiros trabalhos”[1] (Ferreira, 2007, 224) como arquiteto, aguarelista e modelador. Aí alicerça a sua formação, num ambiente profícuo, marcado por um património que, cultural e materialmente, fizeram parte do seu quotidiano. Estimulado pela presença e pela prática de quantos o rodearam e no seio do qual cresceu e consolidou conhecimentos e gosto. Vem para Portugal, já na década de 80, juntamente com outros arquitetos, no contexto das reformas introduzidas por Emídio Navarro (1844-1905)[2], então ministro das Obras Públicas. Em 1888, promulga o “Regulamento das Escolas Industriais e das Escolas de Desenho Industrial, tendo como objectivo, além de vários princípios de índole pedagógica, estabelecer o ensino do desenho com aplicação à indústria. […] a falta de pessoal docente com conhecimentos específicos em determinadas áreas da arte ornamental, levará à contratação de docentes estrangeiros. Assim foram contratados Giovanni Cristofanetti para a cinzelagem, Leopoldo Battistini para a pintura e cerâmica, Cesare Lanz Ernesto Korrodi e Nicola Bigaglia para a arquitectura, entre outros.” (Barreira, 2013, 36)[3], dando continuidade a uma prática das relações culturais e artísticas entre Portugal e Itália, que tem o seu início no século XVI e progressivamente se vai acentuando. No século XIX, foram vários os artistas italianos a trabalhar no país[4] e inclusivamente a adquirir a nacionalidade portuguesa. Artistas multifacetados, refiram-se, entre outros, Fortunato Lodi (1805-1883), Giuseppe Cinatti (1808-1879) ou Luigi Manini (1848-1936), que trabalharam em Portugal como cenógrafos, arquitetos ou na decoração de interiores. Esta demanda acentua-se no difícil contexto criado pelas Invasões Francesas e a consequente ida da corte portuguesa para o Brasil, deixando fragilizadas as instituições e o país. No campo artístico careceram as reformas nas Academias de Belas Artes, deixando espaço para artistas estrangeiros. A essa abertura não foi alheio o gosto dos mecenas, como o príncipe consorte, Fernando de Saxe-Coburgo Gota (1816-1885), D. Luís I (1838-1869) ou D. Maria Pia de Saboia (1847-1911).

Em Portugal, Bigaglia desenvolveu intensa atividade, não só como professor, na Escola Industrial de Leiria, onde lecionou a disciplina de Modelação, e na Escola Industrial Afonso Domingues, em Lisboa, onde desempenhou funções de diretor, mas também de produção artística e arquitetónica. “Com profundos conhecimentos literários, bom desenhador e aguarelista, desenvolve vários projectos de palácios, jardins, jazigos, tapetes, móveis, ornamentos em estuque e mármore, etc. […] em Lisboa realiza muitas decorações de interiores e reestruturações de habitações”. (Ferreira, 2013, 236). Com efeito, são muitos os projetos que executa ou em que participa, quer como arquiteto, quer como decorador, um pouco por todo o país, de que são exemplo: a Casa dos Cedros, no Buçaco, onde trabalha na decoração do hotel, com Luigi Manini (1848-1936); a casa do Visconde da Lagoa, em Silves; o Convento da Portela, em Leiria[5]; a Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo; a Casa-Museu da Quinta da Portela, em Leça da Palmeira; o Grande Hotel das Caldas de Monchique; a casa da Condessa de Edla[6], em Sintra; a casa do pintor João Vaz, no Dafundo… “O artista, conhecido sobretudo pela concepção de arquitectura residencial para figuras ilustres da sociedade, deixou em Lisboa variados exemplos de habitações que encerram o espírito erudito do fin de siècle na capital” (Pinto, 2013, p.97).[7] Nessa cidade, projeta o Palácio Lambertini; o Palacete Leitão e o Palácio Lima Mayer, que lhe granjeou o Prémio Valmor em 1902. “Nicola Bigaglia sobressaiu de imediato no nosso país sobretudo pelo seu temperamento artístico, […] como desenhador inteligente e aguarelista primoroso” (Colares, 1912, p.37, apud: Pinto, 2013, 97), aspetos que se destacam nesta aguarela, datada pelo autor de 1884. Reproduzindo uma perspetiva do interior da basílica de Santa Maria Assunta, em Torcello, importante testemunho de arquitetura veneziana-bizantina, do século VII, situado a norte de Veneza. A basílica, onde se conservam as relíquias do padroeiro da ilha, Santo Heliodoro, apesar das intervenções que sofreu, mantém da construção original a parte inferior da fachada, o altar e o batistério, correspondendo a maioria da estrutura existente às obras ocorridas em 1008. Com uma planta de três naves, sobressaem, na decoração do templo, um notável conjunto de mosaicos, dedicados à Virgem com o Menino, ao Cristo Pantocrator e ao Juízo Final, e os mármores pintados com simbólicos leões e pavões, para além de um extraordinário púlpito em mármore, tema central do trabalho de Nicola Bigaglia, em destaque. Interessante a escolha do púlpito, espaço por excelência de exercício da palavra e de veiculação da mensagem, como tema desta composição, que se define pela riqueza dos volumes, dinâmica das linhas e no jogo de vãos e de zonas de luz/sombra, revelando-nos um universo onde a policromia dos mosaicos e o ouro reverberam a luz nos mármores, criando uma atmosfera mística, cenográfica, intensa que certamente tocou a sensibilidade de Bigaglia, e a sua mestria soube reter. A paleta quente, a luz coada, a sugestão dos diferentes materiais e o trabalho de filigrana dos mármores, em pinceladas exímias traduzem bem a qualidade do arquiteto/pintor.

Nicola Bigaglia haveria de regressar a Torcello, onde faleceu em 1908, ao mesmo lugar onde Ernest Hemingway (1899-1961) escreveu parte do livro: Na Outra Margem, entre as Árvores, publicado em 1950.

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[1] Ferreira, Teresa (2007) – Arquitectos Italianos em Portugal. O Século XIX e o caso de Alfredo d’Andrade. Instituto Italiano de Cultura de Lisboa Nova Série Nº2, pp. 229-244.

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/42645/6/Arquitectos_italianos_em_Portugal.pdf

[2] Emídio Navarro, nasceu em Viseu, residiu em Lamego, em Bragança e em Coimbra onde cursou Direito.

[3] Barreira, João Paulo Pimenta (2013) – António Arroio e o ensino das Artes Decorativas. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, p.36.

[4] Igualmente importante o intercambio com os artistas franceses.

[5] Obra concluída pelo irmão Pietro Bigáglia.

[6] Elise Hensler, cantora de opera por quem D. Fernando se apaixona e com a qual casa em 1869, após a morte de D. Maria II (1819-1853).

[7] Pinto Ana Maria Lourenço (2013) – Realizações e Utopias: O Património Arquitectónico e Artístico das Caldas de Monchique na Cenografia da Paisagem Termal. Dissertação de mestrado em Arte, Património e Teoria do Restauro, da faculdade de letras da Universidade de Lisboa, p.96-140.

Basilica de Torcello

Basílica de Santa Maria Assunta – Torcello

Nicola Bigalia, 1884

Aguarela sobre papel

Dim. [Alt.] 47,1 x  [Larg.] 25,3 cm

Legado de Ana Maria Pereira da Gama

Inv. ML 7823

Bibliografia

BARREIRA, João Paulo Pimenta (2013) – António Arroio e o ensino das Artes Decorativas. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/11977/2/ULFBA_%20TES%20704.pdf [Consultado em dezembro de 2020]

FERREIRA, Teresa (2007) – Arquitectos Italianos em Portugal. O Século XIX e o caso de Alfredo d’Andrade. Instituto Italiano de Cultura de Lisboa Nova Série Nº2, pp. 229-244. Disponível em: https://digitalisdsp.uc.pt/bitstream/10316.2/42645/6/Arquitectos_italianos_em_Portugal.pdf [Consultado em dezembro de 2020]

FRANÇA, José-Augusto (1985) – A Arte em Portugal no Século XX. 1911-1961. Venda Nova: 2ª ed., Bertrand Editora.

JORDAN, R. Furneaux (1979) – História da Arquitectura no Ocidente. Camarate, Ed. Verbo.

PINTO, Ana Maria Lourenço (2013) – Realizações e Utopias: O Património Arquitectónico e Artístico das Caldas de Monchique na Cenografia da Paisagem Termal. Dissertação de mestrado em Arte, Património e Teoria do Restauro, da faculdade de letras da Universidade de Lisboa, pp.96-140. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/11357/1/ulflL148032_tm.pdf [Consultado em: dezembro de 2020 a 4 de janeiro de 2021]

SOUZA, Maria Pincinato Quadros de (2016) – Uma imagem entre dois mundos: um estudo sobre o mosaico do juízo final de Torcello (Veneza Século XI). Dissertação (Mestrado) apresentada no programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-08052017-120244/publico/2016_MarianaPincinatoQuadrosDeSouza_VOrig.pdf [Consultado em dezembro de 2020 a 4 de daneiro de 2021]

TEJADA, Luís Monreal y (2000) – Iconografía del Cristianismo. Barcelona, Ed. El Acantilado, Quaderns Crema, S. A.

Georgina Pessoa | janeiro 2021