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Fotografias Paisagens do Douro

PAISAGENS DO DOURO

Através da lente do monsenhor Correia de Noronha

 

“Tem montes que não param de crescer

Videiras que ninguém pode contar

Oliveiras erguidas a rezar

E um rio que não para de correr […]”[1]

João de Araújo Correia – Durius Dulcis

 

Selecionamos no mês de fevereiro um conjunto de quatro fotografias, gelatinas a p/b, com imagens do Douro, de c. de 1960. Integram o espólio fotográfico de monsenhor Correia de Noronha[2] (1904-2000), doado pelos herdeiros ao museu, após o seu passamento, justamente no dia 8 de fevereiro, há 21 anos.

Sacerdote, cronista, professor de música, fotógrafo amador, a sua personalidade multifacetada encontrou na prática da sua missão religiosa, na escrita e na fotografia, formas de exercer a sua cidadania, consciente e interventiva, de expressar e partilhar o seu pensamento e sensibilidade.

Com a “sua câmara fotográfica, uma SUPER IKONTA 582/16 de 1937 (ZEISS IKON – STUTTGARD- Alemanha) retinha na película as paisagens, os caminhos e as pedras, as árvores e os campos por onde serpenteia o Douro, as barragens e as pontes que o atravessam, obra das gentes que retrata, que fixa no seu quotidiano rural ou citadino” (PESSOA: 2017,13). É este universo que transporta e revela no seu pequeno laboratório, deixando na autenticidade das suas imagens o testemunho de um património natural e cultural que viveu e sentiu.  E a sua lente captou em cuidados enquadramentos, profundas perspetivas, recortadas silhuetas das morfologias telúricas, a força da corrente das águas, as transparências, os jogos de luz /sombra, os céus nublados que sobrevoam os montes. O território e a gente na sua relação estreita, interdependência e interação. No árduo e sinuoso percurso onde discorre a vida na sua impermanência. Nas três primeiras imagens, Correia de Noronha opta por grandes planos para apreender o Douro na sua vastidão espacial, no domínio magistral que impõe à paisagem.  Na última surpreende-o, submerso no lençol branco de nuvens. Imagens de uma região onde a centralidade é dada ao rio, na sua dureza sombria e na sua beleza poética.

Com a nascente nas terras altas da serra de Urbión, província de Sória, Espanha, corre turbulento entre veredas e fraguedos tingidos de mil cores. O seu leito comprime-se entre profundas arribas, encostas escarpadas e margens inóspitas, amotinando-se numa fúria indomável de fortes declives, rápidos e caudais violentos, para depois da catarse, deslizar suavemente, apaziguando as suas águas em vales tranquilos. Berços onde adormece e repousa na longa viagem para o infinito abraço com o atlântico, nas orlas de Gaia e do Porto.

Nas encostas que o ladeiam, ao longo da região demarcada do Alto Douro Vinhateiro, desenha-se a dinâmica geometria dos socalcos, imponentes e simbólicas pirâmides construídas de xisto e suor, onde as vinhas crescem e se transformam em fruto e mosto. Paisagem singular, fértil na fauna e na flora que a habitam, de comunidades ancestrais que aqui se fixaram e a foram transformando. Simbiose de natureza e cultura na construção de valores identitários únicos, que lhe conferiram a categoria de paisagem cultural, evolutiva e viva, atribuída pela UNESCO, a constituir desta região Património da Humanidade, desde 2001 ((14, dezembro). A associar-se às paisagens e às gravuras paleolíticas que vestem as margens do seu afluente, no “encantado”.

Lembramos a importância das ordens monásticas neste processo de intervenção e construção da paisagem, com particular relevo para a Ordem de Cister, que no contexto da formação e consolidação da nacionalidade, e nas épocas seguintes, marcou este território com os seus conventos, as suas granjas e vinhas. Presença e intervenção que em muito ultrapassou o campo espiritual: “[…] a importância da exploração vinícola vai aumentando dentro da economia cisterciense. Esta, baseada em novos e revolucionários princípios para a Europa dos séculos XII e XIII, tende cada vez mais para a rentabilização das terras e dos produtos cultivados. Nesse sentido, o vinho constitui um dos produtos mais rentáveis, não só pela necessidade litúrgica, mas também pelos enormes benefícios que trazia.” (RODRÍGUEZ: 1997, 27)

Numa geomorfologia complexa, a relação estreita entre homem e natureza. Obra multisecular de povos e culturas que souberam adaptar técnicas e conhecimentos, da visão particular de personagens como o Marquês de Pombal (1699-1782) ou D. Antónia Ferreira (1811-1896), que marcaram a fisionomia e a história do Douro. E de muitos anónimos, homens e mulheres, que gastaram as vidas em árduas e repetidas canseiras, transformando “cada ravina em parapeito de esperança e cada bagada de suor em gota de doçura”, como de forma tão bonita e intensa, o disse Miguel Torga (Portugal – Um Reino Maravilhoso)[3], amigo do nosso fotógrafo, com quem privou nos tempos que partilharam, no Seminário Maior, em Lamego.

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[1] GIL, Helena (Coord.) (2005) – Viajar com … João de Araújo Correia. Vila Nova de Gaia. Ed. P. 11.

[2] Remetemos para a publicação InventaMuseu – 06, onde se dá conta desta doação e se apresenta o fotógrafo amador num registo mais biográfico. Disponível em: https://issuu.com/066239/docs/inventamuseu_06

 

[3] GIL, Helena (Coord.) (2004) – Viajar com …Miguel Torga. Vila Nova de Gaia. Ed. Delegação Regional da Cultura Norte, p.20.

Fotografia: Perspetiva do rio Douro

Perspetiva do rio Douro

José Correia de Noronha

c. 1960

Positivo a preto e branco, papel RC, gelatina sal de prata

Inv. ML 7299

Digitalização e tratamento: Museu de Lamego. José Pessoa

Fotografia: Rio Douro

Rio Douro

José Correia de Noronha

c. 1960

Positivo a preto e branco, papel RC, gelatina sal de prata

Inv. ML 7303

Digitalização e tratamento: Museu de Lamego. José Pessoa

Fotografia: Rio Douro

Rio Douro

José Correia de Noronha

c. 1960

Positivo a preto e branco, papel RC, gelatina sal de prata

Inv. ML 7305

Digitalização e tratamento: Museu de Lamego. José Pessoa

Fotografia: Alto Douro - Nevoeiro

Alto Douro – Nevoeiro

José Correia de Noronha

c. 1960 (?)

Positivo a preto e branco, papel RC, gelatina sal de prata

Inv. ML 7319

Digitalização e tratamento: Museu de Lamego. José Pessoa

BIBLIOGRAFIA

GIL, Helena (Coord.) (2005) – Viajar com … João de Araújo Correia. Vila Nova de Gaia. Ed. Ministério da Cultura / Delegação Regional da Cultura do Norte.

GIL, Helena (Coord.) (2004) – Viajar com …Miguel Torga. Vila Nova de Gaia. Ed. Ministério da Cultura / Delegação Regional da Cultura Norte.

RODRÍGUEZ, José Ignacio de la Torre (1997) – A Viticultura nos mosteiros cistercienses do vale do Douro Português (século XII-XIII).  In: – Estudos e Documentos, Vol. I (3) 17-28. Disponível em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/9335.pdf [Consultado em: fevereiro de 2022].

PESSOA, Georgina Pinto (2017) – Monsenhor José Correia de Noronha: O sacerdote músico, cronista e fotógrafo. In.: InventaMuseu 06. Revista da Secção de Inventário. Lamego, Ed. Museu de lamego / Direção Regional da Cultura Norte. Disponível em: https://issuu.com/066239/docs/inventamuseu_06 .

Georgina Pessoa | fevereiro 2022