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Desenho Paisagem

Paisagem

Um desenho a carvão de Tomás da Anunciação, proveniente da coleção Fausto Guedes Teixeira[1], é a peça que se destaca no mês de fevereiro.

Tomás da Anunciação nasceu em 1818 num meio pobre, num Portugal rural, com uma situação económica e financeira ruinosa, num cenário político frágil e ambíguo. As intempestivas napoleónicas, a retirada da corte para o Brasil (1807), a proteção britânica subverteram quer os papéis de colónia quer de aliado. Cadinho profícuo, quer pela angústia sentida, quer pelo convívio entre uns e outros, à difusão e adesão ao ideário liberal que a revolução de 1820 tentou cumprir. Às dificuldades conjunturais somaram-se as diferenças ideológico-programáticas, opondo liberais e absolutistas num contexto de guerra civil que mobilizará muitos para o estrangeiro[2]. Enquanto o poder se vai alternando, o anseio de um país pela reconciliação e a inquietação do espírito progressista na urgência de imperiosas reformas. A cultura inscreve-se, assim, no instável quadro de construção do processo liberal, num esforço legislativo que priorizava a “instrução pública”. Ao nível do ensino artístico as Academias davam a formação que o “Grand Tour” completava. O centro de aprendizagem assumido por Roma ia-se deslocando para norte, sobretudo Paris, possibilitando a abertura a novas realidades estéticas que se iriam confrontar no âmbito das Academias às quais os Salões davam visibilidade. O fim do século XVIII expressava já uma rutura com os valores clássicos, traduzida na defesa de uma liberdade / individualidade e na apologia dos sentimentos corporizada na apresentação de novas temáticas, de uma paleta mais forte e de uma luz vibrante. A anunciar um (pré) Romantismo que se afirma na primeira metade do XIX em toda a Europa com identidades e enquadramentos particulares. Na constante de uma inspiração encontrada no exótico, no fantástico, no imaginário, contraponto de um quotidiano austero e monótono. A afirmação de uma intensidade existencial, pulsar onde passado e presente, vida e morte coabitam naturalmente. De uma natureza personificada, atuante, dotada de sentimentos, refúgio e cenário de ambientes nostálgicos onde ruínas fingidas e arquiteturas evocativas servem de enquadramento paisagístico. O ato criador a sobrepor-se ao virtuosismo técnico. É neste contexto, com meios limitados, que Tomás da Anunciação faz a sua aprendizagem. O gosto pelo desenho surge cedo e a sua prática também, no âmbito do trabalho desenvolvido no Museu de História Natural que lhe possibilitou um contacto com a natureza e uma observação de íntima proximidade. Assimila influências de artistas como Quillard (1700-1733), Pillement (1728-1808), Dufourcq (1807 -?) e Roquemont (1804-1852), entusiasmado pelo pitoresco e pelas paisagens que marcam as suas obras. Em 1837, ingressa na Academia de Belas Artes de Lisboa. Aluno de António Manuel da Fonseca, mestre marcado pelo academismo romano, contra o qual, em 1844, lidera um movimento de contestação. Na qualidade de artista mais velho, Anunciação agrega momentaneamente as expectativas da nova geração. Aqui se encontram Cristino da Silva (1828-1877), Francisco Metrass (1825-1861), José Rodrigues (1828-1887) e Victor Bastos (1830-1894). Contestam essencialmente os programas e os métodos de um ensino de ateliê, baseado na cópia, fechado em velhos cânones. Apela-se a uma pintura de ar livre, individual e sensitiva que encontra na natureza a grande fonte de inspiração – pintar do natural. Ideias que a emblemática obra Cinco Artistas em Sintra, de Cristino da Silva, sintetiza. Apresentada na Exposição Universal de Paris em 1855 e na Academia, no seguinte, foi adquirida por Fernando II (1816-1885)[3]. Mecenas de exceção no panorama português adquiriu também alguns trabalhos de Anunciação, facto que muito contribuiu para uma boa aceitação do público, no incipiente mercado português. Como importante foi também o apoio e as cópias encomendadas por Raczynski (1788-1874). Curiosamente, além de José Rodrigues, os quatro acabariam por fazer parte da Academia. “É como paisagista que Anunciação se vai afirmar dentro da própria Academia cujo ensino criticara e cujo corpo docente vai integrar, a partir de 1852, justamente como professor substituto de Paisagem, numa carreira ascendente que o levará a professor em 1857 e a diretor em 1878.” (Porfírio, 2009, p. 28). Da exposição na loja do Sr. Margotteau para o reconhecimento entre pares, dos circuitos oficiais para a Academia, onde teve uma “prestação … marcada por um empenhamento a que não terá sido alheio o seu temperamento sensato e acolhedor….” (Soares, 1999, 34) e onde ensinou Silva Porto e Malhoa. Em 1867, a propósito da Exposição Internacional, viaja para Paris. Aqui tem oportunidade de ver as obras de Rose Bonheur (1822-1889), de Troyon (1810-1865) e dos artistas da escola de Barbizon. O gosto por uma pintura de paisagem, campestre, de costumes, de detalhe iconográfico ganha novo entusiasmo, bem assim como o interesse pela temática animalista. Enquanto procura motivos de inspiração nos passeios nos arredores de Lisboa, as suas obras povoam-se de animais. Inicialmente integrados, para ganharem o estatuto de “personagem” central, em contextos que lhe servem de meros enquadramentos. A “Vista da Amora” (1852); “ O Sendeiro” (1856); “Na Eira” (1861); “Cabeça de um carneiro e um borrego – estudo” (1871) e “O Vitelo” (1873)[4] testemunham este percurso onde “emergiu como líder desta corrente paisagista e animalista do movimento pictórico romântico […]” (Ribeiro, 2014, 96-98), numa estética naturalista / realista que estava já em curso. A representação pormenorizada da realidade terá no desenho, estudo preparatório da pintura, uma componente fundamental. “Nos desenhos de Anunciação é visível a mais pura linha e a mais impressiva mancha, típicas de alguém que desenhou, e que, acima de tudo, gostou de desenhar.” (Duarte, 2006,527)

Neste desenho a carvão de temática equídea, cria uma composição onde o animal assume a centralidade de uma narrativa simultaneamente intimista e bucólica, dinâmica e intensa. Em primeiro plano um cavalo, de perfil, mata a sede nas águas tranquilas do rio. Ao lado, outros dois voltados de costas. Sobre o dorso do cavalo do meio, a figura de um campino, quase intuída num vislumbrar afastado. Em último plano, um denso arvoredo enquadra a cena, como a “cortina” de um cenário. Os traços vigorosos do carvão sulcam as manchas das copas como veias e um subtil movimento sugere o baloiçar provocado pelo vento, que o céu nublado reforça. A atenção dada à luz, sugerindo vibrantes transições tonais, cria uma “impressão” envolvente, poética, que ora revela o pormenor do ramo que bordeja a água, ora atinge níveis abstratizantes nos salpicos ou nas ténues ondulações da água, provocadas pelas patas dos cavalos.

Constituem parte desta coleção mais três desenhos de Tomás da Anunciação, artista de referência do Romantismo português, mestre considerado, criador carismático onde a natureza e os animais assumem uma dimensão maior.

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[1] Procº 1-A.1/OFF /1942, com o nº 367.

[2] É justamente em 1824 que Domingos Sequeira, então exilado, participa no Salon de Paris com a obra “Morte de Camões” e no seguinte Garrett publica o poema “Camões”.

[3] Fernando de Saxe-Coburgo-Gota.

[4] Constituem parte do acervo do Museu do Chiado, entre outras obras do mesmo autor, encontrando-se representado nas coleções de outras Museus e instituições, como o Museu nacional de Arte Antiga.

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Paisagem

Tomás da Anunciação (1818-1879)

C.1855 -70

Desenho a carvão sobre papel

Dim.: [Alt.] 19 x [Larg.] 29 cm

Doação de Fausto Guedes Teixeira

Museu de Lamego, inv. 901

BIBLIOGRAFIA

Diogo Sanches, Ângela Ferraz, Tatiana Vitorino, Leslie Carlyle, Márcia Vilarigues, Rita Macedo, Maria João Melo (2012) – A técnica e a cor do romantismo pelas mãos de Tomás de Anunciação. In IV congresso de História da Arte Portuguesa Em homenagem a José-Augusto França (Actas). Fundação Calouste Gulbenkian / APHA – Associação Portuguesa de Historiadores da Arte. P.200-207. [Disponível em: https//www.apha.pt/wp –content/uploads/docs/Actas].

Duarte, Eduardo Manuel Alves (2006) – O desenho romântico português. Cinco artistas desenham em Sintra. Vol I e II. Tese de doutoramento em historia da arte apresentada a Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa. [Disponível:https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/8277/4/ULFBA_TES].

França, José-Augusto (1990) – A Arte em Portugal no Século XIX. Volume I. Lisboa: Bertrand Editora.

Lucena, Armando de (1943) – Pintores Portugueses do Romantismo. Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade.

Macedo, Manuel de (1898) – Desenho e Pintura: Bibliotheca do Povo e das Escolas. Lisboa: Secção Editorial da Companhia Nacional Editora.

Maria Helena (2007) – As Academias e Escolas de Belas-Artes e o Ensino Artístico (1836-1910). Colecção Teses. Lisboa: Edições Colibri / IHA – Estudos de Arte Contemporânea, FCSH, UNL.

Pamplona, Fernando (1988) – Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que trabalharam em Portugal. Volume II. Barcelos, Livraria Civilização Editora, 2.ª edição, pp. 127-130.

Porfírio, José Luís (2009) – Da expressão romântica à estética naturalista. In Rodrigues, Dalila (Coord.) – Arte Portuguesa da Pré-História ao Século XX. Vol. 15. Lisboa, Fubu Editores, SA. pp. 11-33.

Ribeiro, António Manuel (2014) – O Museu de Imagens no Museu do Romantismo: património arquitectónico e artístico nas ilustrações e textos do Archivo Pittoresco (1857-1868). Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra.

Soares, Elisa Ribeiro (1999) – O Romantismo e a Pintura Portuguesa no século XIX. In As Belas-Artes do Romantismo em Portugal (catálogo). Lisboa, Instituto Português de Museus, p. 20-42.

Georgina Pessoa | fevereiro 2020