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Desenho “O António Maria”

O António Maria

Mais que mil palavras. O poder da imagem, a sua importância na ilustração e na imprensa do século XIX, e nela a relevância da caricatura e do desenho humorístico. Interpretação sincrética da vida coletiva ou individual, real ou imaginária onde o humor, expressão elevada da criatividade, rasga cortinas de risos no mais inusitado, inóspito, dramático ou caricato cenário. Contexto da peça selecionada no mês de maio, um desenho a lápis que integra a doação de Luís Sebastian (2016). Do ilustrador, caricaturista e ceramista, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867- 1920), destinado à ilustração da contracapa do Jornal “O António Maria[1], de 31 de dezembro de 1893. Jornal de sátira política publicado sob a direção do pai, Rafael Bordalo Pinheiro (1946-1905). A sociedade portuguesa de fim de século, o ambiente político e os intervenientes do “rotativismo” vistos à lupa do polifacetado humorista. Na capa, o busto de Nuno Alvares Pereira, alusão ao livro sobre o herói de Aljubarrota pela pena de Oliveira Martins. A exaltação do povo, do seu passado épico e da bravura dos seus líderes, num período de falência das instituições monárquicas e de incapacidade dos sucessivos governos resolverem os problemas do país face à afirmação do imperialismo europeu e da consequente disputa pelos territórios portugueses em África.

O António Maria, jornal humorístico criado por Rafael, no qual colaboraram, entre outros, Guilherme de Azevedo (1839-1882), com o pseudónimo João Rialto, Ramalho Ortigão (1836-1915); João Ribaixo; Guerra Junqueiro (1850-1923); o irmão Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) e o próprio Manuel Gustavo. Apenas com dezassete anos de idade, justamente a partir de 1 de maio de 1884. “Apresentamos ao publico em geral e aos leitores do António Maria em particular o nosso morgado, como lá se diz, o herdeiro presumptivo da nossa gloria e dos nossos bonecos […] quando o rheumatismo gottoso nos houver inchado as pernas e as sedas do bigode nos apresentarem os reflexos lustrosos do actual bigode do sr. Fontes[2]. A 1ª série termina com alguma desilusão de Rafael face a falta de solidariedade dos jornalistas[3]: “Eu não pertenço ao grupo ajuntamento dos jornalistas por isso que estou sosinho e não há ajuntamentos só d’uma pessoa; eu não pertenço ao grupo dos monárchicos, porque este me chama revolucionário, eu não pertenço ao partido republicano porque este me alcunha de VENDIDO! N’estes termos, não podendo ser político, nem jornalista, vou fazer-me simplesmente operário – o que, afinal de contas, talvez venha a ser mais alguma coisa[4], numa clara referência do criador da carismática figura do “Zé Povinho” à sua atividade de ceramista nas Caldas da Rainha. Ainda que este afastamento seja parcial, continuando a dirigir os projetos seguintes, o apoio do filho torna-se essencial. Em maio desse ano (1885) dá-se ao prelo o “Pontos nos ii” (1885-1891). “Em Lisboa, Manuel Gustavo continuava a ser o repórter dos enredos da política nacional e da vida social e artística que semanalmente inspiravam a sátira bordaliana e, durante os sete anos que durou a publicação, assumiu várias vezes o controlo artístico do jornal”. (Morais, 2004, 33). Aos seus desenhos juntava-se a crónica de Fialho de Almeida (1857-1911). O ultimatum e a defesa dos ideais republicanos conduziram ao seu encerramento e ao regresso de O António Maria – 2ª série, numa conjuntura particularmente difícil. Terminou em 1899, desfasado já do contexto da Regeneração que o tinha motivado, para dar lugar “A Parodia” (janeiro de 1900), que Rafael dirige até à sua morte em 1905. “A paródia é a caricatura ao serviço da tristeza pública[5]. Sucede na direção Manuel Gustavo (terceira série) já durante a ditadura de João Franco (1906-1908). Da política, à crítica social e de costumes, acontecimentos nacionais e internacionais foram mote para suas criações humorísticas, delas emanando um cunho marcadamente ético e de denúncia das situações perniciosas. A atividade docente e o empenho na gestão da Fabrica de Faianças das Caldas, preito também ao pai, vão-lhe retirando o tempo para a prática da ilustração. “Herdeiro material do seu pai, Rafael. Na juventude boémia lisboeta, o tio Columbano retratou-o diversas vezes, no período de maior liberdade e experimentalismo do pintor” (Silva, 2004, 12). Muitas vezes esquecido ou subestimado, porque nascendo em berço tão dotado, não lhe teria sido fácil ser filho e discípulo de Rafael ou ladear o tio Columbano. Da casa do avô Manuel[6] em Alcolena “onde diariamente terminado o jantar com todos reunidos á volta da mesa iluminada a petróleo, obrigava os filhos a desenhar uma hora junto de si […] Aprenderam o desenho com o mesmo á-vontade com que se aprende a falar ” (Morais, 2004, 30). Mas como afirma “Osvaldo Macedo de Sousa: pertencer a uma escola não é um andicape, nem sinónimo de falta de originalidade. Manuel Gustavo, numa análise comparativa aos artistas do seu tempo, é um dos grandes criadores humorísticos, é um artista com obra sólida de destaque, onde a “arte nova” teve momentos especiais de criação gráfica e onde a sátira subsistiu com firmeza e agressividade numa sociedade cada vez mais decadente.” (Xavier, 2004, 73). Pelo crivo do seu olhar crítico passaram factos e figuras, ao qual nem ele e próprio nem o pai escaparam. Participou nas revistas: “Serões” (1901-1911); “Ilustração Portugueza” (1903-1923); “Atlântida” (1915-1920); “Miau” (1916), criou a imagem do gafanhoto, primeiro herói da banda desenhada portuguesa que dará o título à publicação (1903-1906). No traço dinâmico, vigoroso e retilíneo o olhar cáustico de Manuel Gustavo. O governo de José Dias Ferreira[7] (1837-1909), as propostas do deputado, as manifestações, os discursos, as reuniões, os decretos… o ano conturbado que chegou ao fim decrépito e sem perspetivas, ceifado pelo novo. Ressalve-se a «protecção dispensada aos gatos nas já muitas vezes citadas propostas […] excepção para não amargurar a existência dos eléctricos animais»[8] a irónica metáfora na defesa dos felinos. Em maio de 1912 oferece-o como “Lembrança do seu amigo e admirador” a Francisco Valença[9] (1882-1962), como o testemunha a dedicatória presente no canto inferior esquerdo, escrita e assinada pela mão do autor.

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[1] Alusão a António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Desempenhou diversas funções governativas a partir da Regeneração (1851), em 1866 é nomeado Conselheiro de Estado e em 1881-1886 assume a chefia do executivo. A sua política de desenvolvimento económico e de progresso é designada de Fontismo. (1ª série de 1879 a 1885, 2ª série de 1891 a 1898).

[2] 1884 nº 257 [1 de maio] 0007. http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/1884/1884_item1/P127.html.

[3] No apelo feito a realização de uma greve, motivada pela proibição de uma manifestação de solidariedade para com as vítimas de um sismo ocorrido na Andaluzia.

[4] “Duas palavras à beira da sepultura do «António Maria»” – 1885 N.º 3 [21 janeiro] 0016. http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/1885/1885_item1/P34.html

[5] Ano 1, Nº1, 17 Jan. / 1900 – 0002. http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/AParodia/1900/N01/N01_item1/P2.html

[6] Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880) foi pintor, escultor e gravador.

[7] Jurista, advogado e maçom, foi deputado, ministro e presidente do conselho de ministros. O governo que constitui por atribuição de D. Carlos, terá início em 17 de janeiro de 1892, contará com Oliveira Martins no ministério da fazenda, e terminará com a sua demissão em 22 de fevereiro de 1893, regressando este ao parlamento como deputado.

[8] http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/1893/1893  – 1893, nº 369, 26 de jan. 2.

[9] Destacado ilustrador e caricaturista.

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Do “António Maria” de 1894

Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920)

31 de Dezembro de 1893

Desenho a lápis sobre papel

Dim.: [Alt.] 30 x [Larg.] 20 cm

Doação: Luís Sebastian

Museu de Lamego, inv. 8566

BIBLIOGRAFIA

Jornais:

O António Maria “- Disponível em:

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/OAntonioMaria/OAntonioMaria.htm

Pontos nos ii. – Disponível em:

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/PONTOSNOSII/PontosnosII.htm

A Parodia – Disponível em:

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/AParodia/AParodia.htm

 

COSTA, Fernando Marques da (1979) – Aspectos da vida de um burguês 81870-1915). In REIS, Jaime, MÓNICA, Maria Filomena, SANTOS, Maria de Lurdes Lima dos (Coord.) – O século XIX em Portugal. Lisboa: Editorial Presença.

FRANÇA, José Augusto (1981) – A Arte em Portugal no Século XIX. Vol. I, Lisboa, Bertrand Editora.

MORAIS, Cristina (2004) – “Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920). Um Apontamento Biográfico.” In Manuel Gustavo Bordalo pinheiro (1867-1920) obra cerâmica e gráfica. Lisboa, Ministério da Cultura, Instituto Português de Museus, Museu da Cerâmica. pp. 28-49.

SARDICA, José Miguel (1997) – Os partidos políticos no Portugal oitocentista (discursos historiográficos e opiniões contemporâneas). Disponível em: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1221841749J5fQJ6qo5Ov81JL8.pdf.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo (1986) – História de Portugal. Vol. I (1851-18909), Lisboa, Editorial Verbo.

SILVA, Raquel Henriques da (2004) – Prefácio. In Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920) obra cerâmica e gráfica. Lisboa, Ministério da Cultura, Instituto Português de Museus, Museu da Cerâmica. pp. 8-13.

SOUSA, Osvaldo Macedo de (1977) – História da Arte da Caricatura de Imprensa em Portugal. Lisboa, Ed. Cotovia, Vol I.

Georgina Pessoa | maio 2020