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Desenho João Guedes do Amaral

João Guedes do Amaral

“Eu por falta de asas, não voei”[1]

No contexto da coleção de desenho do museu, que tem vindo a ser divulgada na atividade 12 meses, 12 peças, destacamos um desenho a carvão e lápis realizado por João Amaral, retratando em busto o pai, João Guedes do Amaral. “Respeitável cidadão que, apesar da prole relativamente numerosa que tinha a seu cargo, possuía rendimentos para além dos relacionados com o ofício de sapateiro, que lhe proporcionavam o desafogo necessário para acudir a iniciativas filantrópicas, de natureza devocional, que decorriam da normal convivência num meio profundamente religioso entre troca de estatuto e prestígio”. (Falcão, 2017,15). João Amaral, filho mais novo, nasceu em 1874, ainda na rua da Ponte da Olaria, num edifício onde o pai possuía uma oficina e uma sapataria, a pouco tempo de se mudar, família e negócios, para o prédio verde com dois andares e mansarda (Falcão, 2017,15) da rua Macário de Castro, onde a mãe Damiana de Jesus Moreira, abriu a prestigiada Padaria Damiana, importante complemento do orçamento familiar. Aqui cresce e inicia a sua aprendizagem. Numa pequena cidade de interior, conservadora e tradicional, marcada pela presença militar e uma religiosidade ainda presentes nas vivências do quotidiano atual, onde as fardas se misturam com a comunidade e as igrejas e conventos salpicam e enriquecem a malha urbana de história, beleza e tradição. Nas crónicas que mais tarde escreve na Beira Douro[2]fala-nos do vizinho organista da Sé, das brincadeiras na calçada, os passeios com os pais, as procissões e festividades litúrgicas, o olhar sorumbático e altivo dos gigantes do pátio dos reis … figuras e gaiatices de uma infância que diz feliz, num período convulso que assiste ao adensar do confronto entre monárquicos e republicanos, tão vivido e intenso em Lamego. Para o João menino, a visita régia[3] e as festividades com que foram agraciados, esforço de vã imagem de afirmação e normalização, foram o culminar de um ambiente que expirava, de um mundo que estava a ruir. Mais tarde, já no Porto (1891), outro reencontro, num contexto bem diferente, definidas que estavam as suas opções republicanas. Vivências recheadas de estórias e de estímulos a uma criatividade emergente, documentada nos bonecos que já rabiscava nos cadernos de escola[4] entre a gramática e a palmatória do professor e amigo Francisco Luiz Pereira[5]. Mais tarde animaram-lhe o imaginário, agilizaram-lhe a mão e o traço em criações sarcásticas e retratos humorísticos de muitos com quem conviveu, cruzou ou de alguma forma fizeram parte do seu quotidiano. O desenho surge, assim, cedo na sua vida. A residir no Porto, entre os 13 e 24 anos, no início funcionário do irmão, proprietário de uma ourivesaria, só mais tarde, em 1891, se inscreve como assistente nas aulas nas Belas Artes. É nesta altura que inicia o Álbum de Serõescaderno onde reúne os primeiros desenhos e caricaturas, que dedica ao irmão Luiz”. (Falcão, 2017, 24) Em 1892 matricula-se no curso de Desenho Histórico na escola de Belas Artes onde teve por mestre Marques de Oliveira (1853-1927). “Eu devo à cidade do Porto muita gratidão. Foi nela que recebi a minha modesta educação artística e literária, e nela se deu a formação apoucada do meu espírito”[6]Conclui apenas o segundo ano, ainda que tenha sido galardoado com o 1º prémio no fim do primeiro ano. Entre outros notáveis teve como colegas Aurélia de Sousa (1866-1922) e Acácio Lino (1878-1956). Aqui inicia a sua carreira de ilustrador no semanário humorístico Galeria Portugueza para o qual cria uma série de desenhos satíricos e de retratos a carvão de grande detalhe. Trabalha e estreita relações com o primo Acácio Amaral Trigueiros. Ambos virão a ser responsáveis pelo jornal Charivari (entre julho e novembro de 1898). Radicado nos jornais da capital como o António Maria, Pontos nos \ii ou Paródia, onde os Bordalo Pinheiro[7], pai e filho (sob a direção do primeiro), expõem de forma critica o burlesco e ambíguo cenário da vida política nacional. A admiração e influência destes serão notórias em todo o seu trabalho.

A pintura a óleo[8] encontra-se em episódios esporádicos na vida artística de João Amaral. Foi mais tarde, já pai, que a pintura o entusiasmou, nos trabalhos realizados em parceria com o filho Luís, que havia de o acompanhar nas lides museológicas[9]. Uma enigmática e breve viagem ao Brasil interrompe a sua promissora carreira. Os ideais republicanos e problemas de saúde farão com que regresse ao seu velho burgo, em 1899. Talvez os afetos tenham tecido os nós necessários à sua permanência. O casamento com Sara, os filhos e outras missões que assumiu traçaram-lhe outros destinos, sem nunca abandonar esse impulso com que a mão traduzia o seu olhar perspicaz: nas expressões plásticas e literárias ligadas ao teatro amador; no jornal “Cocó, Ranheta e Facada”, com tiragem de apenas um exemplar e direito a hino da lavra do maestro Saldanha Júnior, um desfile de personalidades e figuras típicas onde todos se reviam em despregadas gargalhadas; na participação nas festas do Enterro do Grau de Coimbra (1905); nos cartazes para as “Festas dos Remédios”; nos esquiços das arquiteturas efémeras, … nas crónicas nos jornais locais – A Fraternidade (1911-1935), a Tribuna (1914-1918), o Beira Douro (1942-1945); no estudo da história e do património local e nos esforços gigantescos em sua defesa que o Museu de Lamego tão exemplarmente testemunha, lemo-lo nas linhas e entrelinhas do seu fundo documental, em arquivo na instituição, também recetáculo de uma considerável parte do seu espólio artístico constituído por cerca de duzentas peças, caricaturas e retratos entre os quais se destaca o retrato do seu pai feito em 1893, data em que frequenta o segundo ano nas Belas Artes no Porto.

O seu pai é-nos apresentado num busto a ¾ dentro de uma conceção naturalista, em que as características fisionómicas são apreendidas num traço seguro, num modelado delicado onde as subtis gradações de tons, além da evidente excelência técnica do artista nos remetem para as influências que certamente a fotografia teve. O retrato físico, denuncia-lhe o estatuto, no alinho do traje, nas enormes suíças, no cabelo rigorosamente penteado. As linhas vincadas do rosto, a fronte elevada, a boca fechada, o olhar fixo, intenso, vestem-lhe a alma. Revelam-nos o caráter vertical do homem, o rigor, a determinação que lhe adivinhamos no impulso que deu à sua vida e certamente na influência que teve no autor.

“Eu por falta de asas, não voei”. Faltaram-lhe as asas, como afirma, sobraram-lhe as penas que sentimos nas suas palavras. “Artista, museólogo, bibliófilo, investigador, homem enérgico e determinado.” (Pessoa, 2019, 8), um dos notáveis da cidade, uma referência no universo da museologia e da história local a quem damos as asas do melhor reconhecimento, para que, apesar da finitude da vida, possa sempre voar através da sua obra.

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[1] AMARAL, João, «As Gralhas», A Fraternidade, 19 de janeiro de 1924, p. 1 apud  FALCÃO, Alexandra (2017) – O talentoso e Gentilíssimo João Amaral (1874-1955). Lamego: Museu de Lamego / DRCN, p. 8.

[2] João Amaral, «Dos velhos tempos…».

[3] Visita de D. Luís I, D. Maria, príncipe D. Carlos, Infante D. Afonso e os ministros Fontes Pereira de Melo e Hintze Ribeiro, em 1882. In FALCÁO, Alexandra (2017) – O talentoso e Gentilíssimo João Amaral (1874-1955). Lamego: Museu de Lamego / DRCN.

[4] AMARAL, João, «Estudos, notas e apontamentos. Dos velhos tempos…», Beiradouro, 9 de julho de 1938, p. 4 apud FALCÃO, Alexandra (2017) – O talentoso e Gentilíssimo João Amaral (1874-1955). Lamego: Museu de Lamego / DRCN.

[5] AMARAL, João, «Dos velhos tempos…», Beiradouro, 30 de setembro de 1944, p. 1 Apud FALCÃO, Alexandra – O Gentilíssimo e Talentoso João Amaral (1874-1955) p.24.

[6] AMARAL, João, «Dos velhos tempos…», Beiradouro, 8 de Julho de 1944, p.1-2. Apud FALCÃO, Alexandra – O Gentilíssimo e Talentoso João Amaral (1874-1955) p. 24.

[7] Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905); Manuel Gustavo (1867-1920).

[8] Com 21 anos pinta um auto-retrato a óleo, técnica que só mais tarde e pontualmente usa.

[9] Com o filho realizou, em 1951, uma exposição no clube lamecense onde apresentaram a cópia do quadro de Gaspar Vaz, representando São Pedro, da igreja do Mosteiro de São João de Tarouca.

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Retrato de João Guedes do Amaral

João Amaral

1893

Desenho a lápis e carvão

Dim.: [Alt.] 56,5 x [Larg.] 42,5 cm

Oferta da família do autor, 1974

Museu de Lamego, inv. 2723

BIBLIOGRAFIA

Arquivo do Museu de Lamego – Fundo Documental de João Amaral.

COSTA, M. Gonçalves (1975) – Lutas liberais e Miguelistas em Lamego. Documentos inéditos. Lamego, Gráfica de Lamego.

CORREIA, Vergílio (1923) – Artistas de Lamego. Coimbra, Imprensa da Universidade.

FALCÃO, Alexandra (2017) – O talentoso e Gentilíssimo João Amaral (1874-1955). Lamego: Museu de Lamego / DRCN.

FALCÃO, Alexandra (2019) – «João Amaral». In Dicionário – QUEM É QUEM NA MUSEOLOGIA PORTUGUESA. Lisboa, Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pp.13-16. Disponível em: https://institutodehistoriadaarte.files.wordpress.com/2019/03/dicionario_quemquem.pdf

LEMOS, Viriato (1961) – «A obra e o Autor». In AMARAL, João. Roteiro Ilustrado da Cidade de Lamego, Lamego.

PESSOA, Georgina (2019) – Inventa Museus. Fundos documentais. Museu de Lamego, pp. 7- 8 / pp. 108 – 172. Disponível em: https://issuu.com/066239/docs/revistainventamuseu08

RICA, Armando; CABRAL, Fernando (2006) – Ilustres de Lamego. Lamego, Câmara Municipal de Lamego, pp. 116 e 117.

Georgina Pessoa | junho 2020