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Desenho Esquiço

Esquiço

Um esquiço representando dois bustos masculinos de perfil e a ¾, respetivamente, é o desenho destacado como peça do mês de março. Também ele pertenceu a Fausto Guedes Teixeira (1871-1940), doado ao museu pela sua mulher, após a morte deste, dando cumprimento à sua vontade. Sem data e sem assinatura de autor, surge no rol dos bens do poeta que desde 1942 constituem parte do acervo do museu[1], atribuído por João Amaral[2] (1874-1955), ainda que com alguma interrogação, ao pintor João António Correia (1822-1896). Artista portuense nascido no seio de uma família de comerciantes do setor têxtil, em plena conjuntura de implantação do liberalismo em Portugal, num clima de fortes tensões e lutas internas. Num mundo em célere mudança, liderado por uma sociedade burguesa, industrial, financeira e urbana, e ainda que por natureza conservadora no que concerne à cultura artística, é também dentro dela que surgem as elites e os movimentos de vanguarda que preenchem a segunda metade do século.

António Correia estudou Desenho na Academia Real da Marinha e Comércio da cidade do Porto. Frequentou como voluntário a aula de Pintura Histórica (1835-1838) e, em 1838-1839, matricula-se no curso de Matemática, continuando o curso de Desenho como estudante ordinário. Foi discípulo de Roquemont (1804-1852) e de João Batista Ribeiro (1790-1868). Frequenta as aulas de Anatomia Pictórica e de Perspetiva Linear e Ótica durante 3 anos até 1838-1839 /1841/1842. As aulas de Pintura Histórica, frequentá-las-á até 1846. Disciplinas pelas quais foi responsável Joaquim Rodrigues Braga (1790-1853), artista que tinha completado a sua formação em Roma.

Será considerável o esforço então feito na renovação do ensino das Artes. Conscientes da urgência do desenvolvimento das artes fabris para o progresso do país e a importância aqui desempenhada pelas Belas Artes. Tratava-se de “recuperar as artes em Portugal do seu enorme atraso em relação às outras nações europeias” (Lisboa, 2006, 33). Preocupações e objetivos também subjacentes à criação da Academia Portuense de Belas Artes. A importância aqui dada ao desenho é perentória já que nenhum aluno se podia matricular nas Aulas de Pintura e Esculptura sem testemunhar a suas competências nesta área. António Correia mostrou-se não só merecedor de a frequentar, como foi premiado com a apresentação da cópia da estampa “Vénus ligando as asas de Amor”, assim como na exposição trienal de 1842 onde obteve o 1º prémio em Pintura História com “Morte do Conde Andeiro”. Estas exposições, abertas a todos os artistas, assumem grande relevância na desejada interação academia/cidade. O trabalho de mestres e alunos era apreciado e avaliado pela opinião pública. “A Academia pretendia assim reivindicar para si um papel activo, de intervenção na vida da cidade e ao mesmo tempo captar a atenção dos possíveis mecenas para o apoio dos artistas. Do mesmo modo contribuía para estimular e incentivar a formação de uma cultura especializada no campo artístico, e dinamizar o próprio mercado artístico. (Vasconcelos, 2009,14).

Aluno talentoso parte para Paris em 1848 a expensas de um grupo de mecenas liderado pelo Pe Manuel de Cerqueira Vilaça Bacelar (1766-1860). Aqui contactou com artistas como Nanteuil (1813-1873), Yvon (1817-1893) e Chassériau, (1819-1856), este último, com uma obra marcada pela temática orientalista e com grande influência na sua formação, testada nas anotações presentes nos seus desenhos, ou no retrato “o Negro[3] obra emblemática do artista. “Frequentou os atelier dispares de Ingres, de Vernet e de Delaroche. Dessa aprendizagem resultou um misto de romantismo epocal, de classicismo congenital, traduzido em retratos correctos e por vezes sensíveis …” (França, 1966, 284).

De Ingres reteve “o recurso a um desenho irrepreensível, meticulosamente construído e proporcionado, a qualidade de retratista e o predomínio da linha como elemento estruturante das composições e um linearismo neoclássico que percorre a sua obra. “ (Vasconcelos, 2006, 29). Regressou a Portugal em 1855. Em 1857 ganha o concurso para o provimento de docente da cadeira de Aula de Pintura Histórica, nomeação que obtêm por carta régia de D. Pedro V. A introdução do modelo vivo e da Aula do Nu evidenciam o caráter prático do programa apresentado. Permite um papel mais interventivo ao aluno e um acompanhamento mais individualizado ao professor, conceitos que vinham sendo introduzidos, mas aos quais a sua dedicação e personalidade, consubstanciada na qualidade de reconhecido pedagogo que foi ao longo de 40 anos, atribuiu uma mais valia testada pelo percurso de muitos dos seus alunos como Soares dos Reis (1847-1889), Silva Porto (1850-1893), Torcato Pinheiro (1850-1910), Marques de Oliveira (1853-1927), Henrique Pousão (1859-1884), António Carneiro (1872-1930), entre outros. A sua carreira académica culmina com a nomeação para o cargo de diretor em 1882, em substituição de Manuel da Fonseca Pinto.

Na sua vasta e eclética obra[4], onde fez largo uso da gravura, particularmente da litografia, conta-se a sua constante participação nas Exposições Trienais, com notas sempre relevantes na imprensa, na pintura de temática religiosa e histórica, com menor expressão a natureza morta, na arquitetura efémera[5] e de forma particular no retrato. Generalização de um gosto e de uma prática tão devedores a Roquemont e à fotografia. Dos autorretratos, aos retratos dos colegas, aos retratos régios ou aos vários retratos com que deu resposta às inúmeras solicitações de um público ávido de se fazer representar e de perpetuar a sua memória, como o retrato do Pe. Bacelar, seu benemérito, ou de Manuel Clamouse Brawnw[6] (1823?-1870), ou de Constantino do Vale Pereira Cabral (1806-1873), este com raízes durienses, retratados na esteira do mestre[7], nas suas ricas indumentárias, em poses hieráticas, num realismo objetivo, físico, superficial, mas revelador de um profundo conhecimento da anatomia e de um rigoroso domínio do desenho. Já noutro contexto, livre dos espartilhos da pintura do retrato, o desenho espontâneo, o estudo da composição ou do tema, a busca de um sentido, de uma ideia ou mero registo de uma inquietude. É neste contexto que situamos este esquiço, onde se representam os bustos de dois anciãos, numa composição descentrada, construída por um traço incisivo e enérgico. Na dinâmica geometria das linhas ganham forma os rostos e as mãos, os gestos e os olhares, expressão intimista e determinada, num, observadora e reflexiva, no noutro. Apreensão da tensão / interrogação, condição onde se revê a natureza humana.

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[1] Até 2009 o percurso museológico contava com uma sala dedicada ao poeta lamecense onde se expunha a maior parte do seu espólio.

[2] Director do Museu desde a sua criação em 1917, ele próprio artista e excelente desenhador, estudioso e conhecedor do trabalho dos artistas sobretudo dos que lhe são coevos ou relativamente próximos.

[3] Obra de 1869, integra acervo do Museu Nacional Soares dos Reis.

[4] Presente em várias instituições e museus como o Museu Nacional Soares dos Reis; Museu da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto; Associação Comercial do Porto, Casa-Museu Almeida Moreira, Museu Nacional Machado de Castro, Museu nacional de Arte Antiga, etc.

[5] Participação nos festejos da primeira visita régia que D. Luís fez a cidade do Porto acompanhado de D. Maria Pia (1863).

[6] Fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e de Nª Sª de Vila Viçosa, sócio fundador da Associação Comercial do Porto.

[7] Referimo-nos ao pintor Auguste Roquemont (1804-1852).

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Esquiço

João António Correia – 1822-1896 (atribuído)

1840 – 1860

Desenho a pena

Dim.: [Alt.] 13 x [Larg.] 21 cm

Museu de Lamego, inv. 899

BIBLIOGRAFIA

FIGUEIREDO, Manuel de (1949) – Mestre João Correia e alguns dos seus discípulos. Porto, Separata da Revista Museu, Vol. V.

FRANÇA, José-Augusto (1966) – A Arte em Portugal no século XIX, Vol. I, Lisboa, Livraria Bertrand.

LISBOA, Maria Helena (2006) – As Academias e Escolas de Belas Artes e o ensino artístico (1836-1910), Lisboa, Edições Colibri.

PAMPLONA, Fernando de (1987) – Dicionário de pintores e escultores portugueses ou que trabalharam em Portugal, Vol 2, Porto, Livraria Civilização.

SILVA, Raquel Henriques da (1995) – “Romantismo e Pré-naturalismo”. In PEREIRA, Paulo (Dir.) – História da Arte Portuguesa, Vol. III, Lisboa, Temas e debates.

SOARES, Elisa Ribeiro (1999) – “O Romantismo e a pintura portuguesa no Século XIX”, In As Belas Artes do Romantismo (Catálogo), Porto, Instituto Português de Museus.

VASCONCELOS, Artur Duarte Ornelas (2009) – Mestre João António Correia (1822-1896): Entre a construção académica e a expressão romântica (Tese de Mestrado), Universidade do Porto: FLUP.

Georgina Pessoa | março 2020