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Desenho “Carro de bois”

Carro de bois

Na coleção que tem vindo a ser estudada e divulgada em 2020, seleciona-se, para o mês de agosto, um desenho a lápis, proveniente da coleção de António Metelo Seixas, oferecida ao museu em 2013, assinado por Alberto de Sousa (1880-1961), reconhecido aguarelista, ilustrador e desenhador, representado em várias instituições museológicas. Lisboa foi o chão onde nasceu e morreu. Aí inicia os estudos em Desenho (1893), na Escola Superior de Belas-Artes, onde foi discípulo de Manuel de Macedo (1839-1915) e de Nicola Bigaglia (1841-1908), seguindo-se a aprendizagem e o trabalho no ateliê de Roque Gameiro (1864-1935). O seu percurso artístico afirma-se a partir de 1901 com a participação na exposição coletiva inaugural da SNBA[1], onde obteve a medalha de honra. Estudioso da gravura, a ele se deve a recolha feita das obras de gravadores estrangeiros que permaneceram em Portugal nos séculos XVII a XIX. Republicano convicto fez uso do seu talento para a criação de uma iconografia onde se testemunham episódios da conjuntura portuguesa coeva. Marca que deixa em vários jornais como O Mundo, Novidades, Vanguarda, República ou A Capital, que ajudou a fundar, ou em publicações estrangeiras como o L’Illustration ou o Illustrated London News. Colaborou com a editora Lello onde os seus desenhos corporizaram as grandes personalidades nacionais e internacionais da época. No profícuo universo da ilustração é notória a sua aproximação a Bordalo Pinheiro (1483-1520), tendo participado no “António Maria”, “Pontos nos ii” e na revista “A Paródia”. Nas revistas Serões e Ilustração Portugueza de 8 de fevereiro de 1908[2], Alberto de Sousa registou em detalhe o que escapou à fotografia. A tragédia da monarquia portuguesa correu mundo no seu traço rigoroso e expressivo, revelando o instinto protetor da rainha mãe[3]. Juntamente com Roque Gameiro ilustra o livro Quadros da história de Portugal de Chagas Franco e João Soares, reflexão obre o percurso histórico do país, com 1ª edição em 1917. Num momento igualmente trágico da história europeia[4]. Em janeiro de 1914 participa na exposição de aguarelas da SNBA[5] – de que dá conta a Ilustração Portugueza:”Alberto de Sousa […] é já um consagrado[6], ano em que ilustrou a obra Pátria Portuguesa de Júlio Dantas[7] e foi nomeado conservador artístico da Inspeção das Bibliotecas e Arquivos. No ano seguinte ver-se-ia envolvido na polémica questão “Manifesto Anti-Dantas”, ponto alto da aguerrida troca de galhardetes entre Almada Negreiros e Júlio Dantas, resultante da crítica feroz feita por este à revista “Orpheu[8], respondendo o primeiro com a energia arrebatadora da sua juventude e do caráter mordaz que lhe assistia. “Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! […] Alberto de Sousa, o Dantas do desenho! […]” (Negreiros, 1915, s/p), numa expressão da tensão entre a permanência de uma estética instituída e a linguagem dos movimentos vanguardistas em curso. Todavia, Almada seria um artista do regime, quando conceitos e motivações se tornaram convergentes. Elo que António Ferro (1895-1956) estabeleceu, ele próprio, editor da Orpheu e a partir de 1933 responsável pelo SNP[9]. Decorrente já do contexto cultural e político da segunda metade do século XIX, que aliou o conhecimento arqueológico ao pensamento cientifico moderno, dando origem à criação de sociedades arqueológicas, museus e revistas especializadas, Alberto de Sousa, funda em 1916, com Sebastião Pessanha e Virgílio Correia a revista de Etnografia e Arqueologia Terra Portuguesa. Aqui colaboraram muitos dos melhores do seu tempo, como Aarão de Lacerda (1863-1921), Luciano Freire (1864-1935) ou Ana de Castro Osório (1872-1935). Em 1931 participa na Exposição Colonial de Paris apresentando uma série de aguarelas onde regista o património português em Marrocos. Pegadas do império, expressão da política cultural do Estado Novo e do que virá a consubstanciar a “politica do espírito[10]. Agente de uma linguagem estética e de um gosto impostos e instrumentalizados. “Com a “política do espírito”, […] António Ferro consegue ao mesmo tempo utilizar o mundo das artes para a promoção da ideologia salazarista […]”. (Santos, 2008, 59). É neste contexto que se enquadram as Exposições de Arte Moderna e a participação nos grandes certames internacionais como Paris (1937) ou Nova York (1939), ou as várias comemorações nacionalistas e exposições como a Exposição Colonial Portuguesa (1934) e Exposição do Mundo Português (1940). Em 1946 obteve o prémio Roque Gameiro do SNI e em 1950 publica “50 anos de vida artística”, síntese de um percurso diversificado e empenhado, traduzido em muitas exposições, obras ilustradas e escritas, prémios e menções honrosas. Em 1981, a Fundação Calouste Gulbenkian reúne as obras mais significativas do artista, numa grande exposição onde se celebrou o centenário do seu nascimento. Fazendo parte da segunda geração de pintores de ar livre, Alberto de Sousa deixou a cadeira na Brasileira, ao Chiado “onde se sentava sempre […] com o seu amigo de toda a vida, Gustavo de Matos Sequeira […]” (Valadar, 2011, apud Pessoa, 2011, 1), para percorrer o país de lés a lés. “Conhecem-no as amendoeiras de Silves e os castanheiros de Vila Real e Bragança […] É tomar ao acaso os quadros pintados numa excursão do verão passado, por Trás-os-Montes e Beira e agora expostos pela primeira vez, do castelo de Ucanha, chafariz de Bragança, varanda florida de Lamego […] é sempre o motivo artístico aliado ao documento do passado” (Correia, 1914, 56-57). Como os moinhos dos arredores de Lamego ou o “quelho” de Salzedas… No seu traço esquemático o rigor das perspetivas, a riqueza dos enquadramentos, do detalhe. A excelência do tratamento luz / sombra na criação dos volumes e das transparências, nos céus luminosos ou carregados, … a mestria com que nas suas aguarelas a mancha de cor se dilui no apontamento riscado e o anima de vida. No desenho que agora se destaca, a representação de uma cena tão presente no quotidiano português da época: dois bois puxando o carro unidos pelo pesado e decorativo jugo. No esquiço “desnudo”, alicerce primordial da obra a visibilidade da excelência do autor. Numa composição compacta, rica de elementos, expressiva e enérgica, o esforço transmitido pela tensão dos músculos dos animais, a mansidão misturada com o cansaço resignado que lhe emana do olhar … Narrativa de um Portugal profundo e genuíno que ecoa ainda dentro nós e da consciência que subsiste e teima em preservar, na sua materialidade ou imaterialidade, a essência do somos. Quer se encontre no som dos chocalhos ou na melodia do fado, ambos Património da Humanidade, para que o espírito da gente e dos lugares permaneça e tenhamos sempre um ponto de apoio.

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[1] Sociedade nacional de belas Artes – criada em 1901 a partir da junção da Sociedade Promotora das Belas-Artes (1860) e do Grémio Artístico (1890).

[2] 1 de Fevereiro de 1908 – Atentado no regresso de Vila Viçosa a Lisboa vitimou o rei D. Carlos(1863-1908) e o príncipe D. Luís (1887-1908).

[3] D. Amélia.

[4] I Grande Guerra (1914-1918).

[5] Sociedade Nacional de Belas Artes.

[6] Ilustração Portugueza – (Série II, Nº 413, p.86).

[7] Júlio Dantas – médico, diplomata, escritor, Inspetor Superior das Bibliotecas e Arquivos Nacionais. Alberto de Sousa ilustrou outras obras como o Primo Basílio e os Maias de Eça de Queiroz.

[8] Revista trimestral editada por Almada Negreiros, Fernando Pessoa e Mário de Sá Carneiro.

[9] SPN (Secretariado de Propaganda Nacional) criado em 1933, no pós guerra SNI (Secretariado de Nacional de Informação).

[10] Designação de António Ferro (na esteira de Paul Valéry) que a revista de Arte e Turismo – Panorama corporizou, agregando muitos da elite intelectual portuguesa.

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“Carro de bois”

Alberto de Sousa (1880-1961)

S/d

Desenho a lápis sobre papel

Dim. [Alt.] 38,5 x [Larg.] 29,3 cm

Doação de António Metelo Seixas

Museu de Lamego, inv. 8490

Bibliografia

CORREIA, Virgílio (1914) – “O Aguarelista Alberto de Sousa”. In: A Águia. 2ª série, vol. V, N.º 26 | fev. 1914, pp. 55-57. Disponível em: http://ric.slhi.pt/A_Aguia/visualizador?id=09613.006.002&pag=28

FRANÇA, José-Augusto (1967) – A Arte em Portugal no Século XIX. Vol. II. Lisboa: Bertrand Editora.

FRANKOWSKI, Eugeniusz (1916) – “Cangas e Jugos portugueses de Jungir os Bois pelo cachaço”. In: Terra Portuguesa, Anno 1º, Nº 2, pp. 3-43. Disponível em: http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/Periodicos/TerraPortuguesa/1916/N02/N02_master/TerraPortuguesaN02_Mar1916.PDF

Ilustração Portugueza, II Série, Nº 413, Lisboa, 19 de janeiro, 1914, pp.84-88.  Disponível em: http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/IlustracaoPort/1914/N413/N413_master/N413.pdf

MUNDO PORTUGÊS. Imagens de uma Exposição Histórica (1940). Lisboa, Edições SNI.

NEGREIROS, José de Almada (1915) – Manifesto Anti-Dantas. Disponível em: http://ml.virose.pt/blogs/texts_14/wp-content/uploads/2014/01/MANIFESTO-ANTI-DANTAS.texto_.pdf

PAMPLONA, Fernando de (1943) – Um Século de Pintura e Escultura em Portugal (1830-1930). Porto: Ed. Livraria Tavares Martins.

PESSOA, Maura (2011) – “Alberto de Souza: Os Rostos da República na Imprensa da Época” Recensão crítica da Conferência apresentada por António Valdemar na Hemeroteca Municipal de Lisboa (a 14 de Dezembro de 2011) no âmbito das Comemorações do II Aniversário do Bairro Alto, Bibliotecas Municipais de Lisboa, p. 1. Disponível em:  http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/RecursosInformativos/ActasdeColoquiosConferencias/novoAlbertoSouza.htm

PORTELA, Artur (1982) – Salazarismo e Artes Plásticas. Lisboa, Ministério da Educação.

Santos, Graça de (2008) – “Política do espírito”: O bom gosto obrigatório para embelezar a realidade. Media & Jornalismo, Université Paris X – Nanterre, pp. 59-72. Disponível em: http://fabricadesites.fcsh.unl.pt/polocicdigital/wp-content/uploads/sites/8/2017/03/n12-poltica-do-esprito-o-bom-gosto-obrigatorio-para-embelezar-a-realidade.pdf

Georgina Pessoa | agosto 2020