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Em 1987, realizou-se, no Museu de Lamego, a exposição coletiva Nove Artistas Contemporâneos por iniciativa do artista plástico Carlos Lança (1937-2009). No ofício dirigido ao então diretor Abel Flórido, afirma: “Com o objectivo principal de participar, quanto possível numa necessária “descentralização cultural” venho organizando diversas exposições colectivas em diferentes pontos do país…”[1]. Na introdução do breve catálogo que a acompanhou, o mesmo autor objetiva os seus propósitos: “Esta colectiva é, em si mesmo, uma proposta de diálogo; por um lado, o “dialogar”entre as diversas propostas estéticas e por outro, o que se deseja, entre as obras e o visitante[2], que eram recorrentes no ideário cultural de abril.

Francisco José Simões (1913-1992) participou com três peças nesta exposição, daqui resultando a doação de uma delas. Um desenho a cores, realizado a canetas de feltro sobre papel, obra selecionada para o mês de dezembro, fechando o tema tratado ao longo 2020. Francisco Simões nasceu em Lisboa, num período convulso, entre a afirmação do regime republicano e o deflagrar da 1ª Grande Guerra (1914-1918). No decurso da sua vida, onde discorre o incrível e intenso século XX, outras guerras e revoluções, feitas de armas e cravos, de intolerância e criatividade, de amarras e de voos …foram certamente criando contextos e motivações por onde Francisco Simões se moveu, construiu e inovou, deixando de si pegadas de uma existência peculiar e marcante. Pertencente a uma família de industriais e aficionados de muita valia, tendo começado muito cedo a frequentar as arenas, sobretudo de Espanha[3]. Destacado proprietário, ligado à indústria e agropecuária, grande benemérito, agraciado em 1958 com a Ordem de Mérito com Grau de Cavaleiro e em 1966 com a Ordem de Mérito Agrícola com Grau de Comendador, o entusiasta aficionado reuniu um espólio notável alusivo à temática da festa brava. A “Gazeta dos Caminhos de Ferro” dá conta da sua importância: O Comissariado de Turismo passou a incluir nos seus roteiros a visita ao magnífico Museu Tauromáquico que o Sr. Comendador Francisco José Simões organizou em Pinheiro de Loures (Bettencourt, 1966)[4], no local onde, justamente, encontramos um arruamento com seu nome.[5]

A pintura surgiu tardiamente na sua vida, em 1977, (começado a expor a partir de 1982[6]), certamente, devido ao estímulo e à relação próxima que tinha com Arpâd Szenes (1897-1985) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)[7], cuja influência é bem visível na linguagem formal e estética que atravessa a sua obra. Construções geometrizadas de grande dinamismo e intensidade cromática ou depuradas composições de signos ancestrais, nas quais a monocromia mergulha em enigmática simbologia. Ora parecem receber a luz de dentro numa espécie de irradiação arquitectónica … ritmos mais ousados, sinuosos, curvando em paralelas ou crescendo em espirais são paredes, cúpulas de palácios irreais, de florestas serpenteadas de pedra, de extensões concêntricas… Espaço a espaço, cor a cor…organiza-se como se fosse um tecido frágil recobrindo delicadamente um corpo suave e sob o qual se move (Azevedo, 1988)[8]. Ora surgem libertas …das seduções imediatas da cor e do enriquecimento minucioso da superfície, dando lugar a fascinantes caligrafias de sinais onde se percebe a fluidez automática do desenho. (Moura, 1988)[9]. A obra de Francisco José Simões parece surgir de forma espontânea e irreverente, riscada pelas canetas de feltro sobre a folha de papel almaço, como algo resultante de um processo de maturação intrínseco e a urgência da mensagem partilhada.

Alfredo Garcia refere sobre o trabalho de Francisco Simões: Os desenhos de Francisco José Simões falam com o observador, através de perspectivas que, articuladamente, se aglomeram no espaço; […] passeiam (grafismo e cromia) pelo papel, incutindo no espírito do observador mais atento a sensação de que caminham em sua direção, […] diálogo visual de arte animada, multiplicada na «obra aberta» (Garcia, 1987)[10], numa descrição que encontra correspondência com o desenho que agora se partilha.

Explosão de um universo de luz e cor que emerge de uma força centrífuga e se expande numa teia de linhas, de formas e de pontos. Ilusão de ótica que confunde a bidimensionalidade do suporte, ganhando uma volumetria e um movimento que nos impele para dentro de si e nos torna como parte sua, numa intensidade de perceções sensitivas. Celebração da vida, contraditória e surpreendente. Beleza feita de bravura, no bailado de touro e toureiro, existência paradoxo, pintada de sangue e morte.

A sua obra encontra-se representada em vários museus – Museu Municipal de Loures, Museu Municipal da Golegã, Museu Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco e Museu de Évora, entre outros) e em coleções privadas[11], nacionais e estrangeiras (Espanha, França, Suíça, Itália, Países Baixos, Inglaterra, Estados Unidos, Japão, África do Sul…), onde Francisco Simões apresentou o seu trabalho.

SEM TÍTULO
Francisco José Simões
1987
Desenho a canetas de feltro sobre papel
Doação do autor
Museu de Lamego, inv. 3710

[1] Arquivo do Museu de Lamego: Procº 75.2/Exp. 75.

[2] Lança, Carlos (1987) – Nove Artistas Contemporâneos. Lamego. Ed. Museu de Lamego. s/p.

[3] Arquivo da Câmara Municipal de Loures / Toponímia/ Oficio: N/Referencia 00163 de 31 Jan. 2013.

[4] Bettencourt, Rebelo de () – O Museu tauromáquico de Pinheiro de Loures e o Turismo. In: Costa, Luís da (Dir.) – Gazeta dos Caminhos de Ferro, Transportes e Turismo. Lisboa, Nº 1884, 16 junho, 1966.

[5] Freguesia de Loures, localidade de Terra de Minas, por deliberação de 7 de fev. de 2013.

[6] Lança, Carlos (1987) – Nove Artistas Contemporâneos. Lamego. Ed. Museu de Lamego, s/p.

[7] Maria Helena Vieira da Silva era prima de sua mulher, Maria Isabel de Almeida Simões.

[8] Azevedo, Fernando de (1988) – Francisco José Simões e o elogio da S.N.B.A. In Noticias de Loures, nº 444 (jun. 1988), p. 9.

[9] Moura, José Luís Carneiro de (1988) – A Pintura Caligráfica de Francisco Simões. Lisboa, 28 de fevereiro. Cit.: Vento Novo, A.11, nº213 (maio 1988), p. 15.

[10] Garcia, Alfredo Paradella (1987) – Sobre a pintura de Francisco Simões. (Lisboa, 4 de abril de 1987), Loures, Museu Municipal de Loures.

[11] Informação de Francisco Simões (neto do pintor), que acrescenta o facto de o ateliê do pintor se manter exatamente como este o deixou.


Particular nota de agradecimento a:

Ana Raquel Silva (Departamento Desporto Cultura Juventude / Divisão Cultura / Unidade de Património e Museologia) da Câmara Municipal de Loures,

Jorge Aniceto (Departamento Desporto Cultura Juventude / Divisão Cultura / Unidade de Património e Museologia da Câmara Municipal de Loures,

Paula Faria (Biblioteca Central / do Ministério das Finanças)

João Sabino (Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças)

Pela gentileza, empenho e profissionalismo com que deram resposta aos nossos pedidos de informação.

A Francisco Simões (neto) pela pronta disponibilidade que manifestou em nos receber e partilhar a obra do seu avô, pelo diálogo telefónico, breve, mas importante na apreensão da personalidade e do percurso da pessoa e do artista.


BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Fernando de (1988) – “Francisco José Simões e o elogio da S.N.B.A” In Noticias de Loures, nº 444 (jun. 1988), Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire, Museu Municipal de Loures, p. 9.

BETTENCOURT Rebelo de (1966) – “O Museu tauromáquico de Pinheiro de Loures e o Turismo” In: Costa, Luís da (Dir.) – Gazeta dos Caminhos de Ferro, Transportes e Turismo, Lisboa, Nº 1884, 16 junho, p.143. Disponível em: http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/OBRAS/GazetaCF/1966/N1884/N1884_master/GazetaCFN1884.pdf [Consultado em: novembro de 2020].

GARCIA, Alfredo Paradella (1987) – Sobre a pintura de Francisco Simões. Lisboa, 4 de abril de 1987, Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire, Museu Municipal de Loures.

MOURA, José Luís Carneiro de (1988) – A Pintura Caligráfica de Francisco Simões. Lisboa, 28 de fevereiro. Cit.: Vento Novo, A.11, nº 213 (maio 1988), Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire, Museu Municipal de Loures, p. 15.


Georgina Pessoa | dezembro 2020