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Tapeçarias Flamengas

Tapeçarias Flamengas

Apesar de conhecida desde o século XII, só nos finais da Idade Média a técnica da tapeçaria conheceu uma expansão verdadeiramente inusitada. Beneficiando de uma de uma indústria organizada e da presença de artistas, os neerlandeses especializaram-se na produção de grandes armações, que rapidamente dominaram o mercado, conquistando monarcas, altos dignitários e príncipes da Igreja, que as adquiriam para a decoração de palácios, castelos e catedrais, rendidos à extraordinária capacidade narrativa e ao sentido de conforto ligados a esta arte sumptuária.

Relacionam-se, justamente, com a antiga residência dos bispos de Lamego,  a coleção de tapeçaria  do Museu de Lamego, reputada como a mais importante que se conserva em Portugal.

Reveladora da importância a que os sucessivos bispos de Lamego sempre devotaram à sua coleção de tapeçarias, é a sua presença quase ininterrupta no paço episcopal, onde passados mais de três séculos após a sua aquisição, ocupavam lugar destacado: a forrar as paredes de três salões contíguos, o salão de receção, do trono e o de audiências ou visitas. Foi aí que, em 1915, o investigador Joaquim de Vasconcelos as encontrou e imediatamente salientou a sua importância artística e histórica.

O JULGAMENTO DO PARAÍSO

O pano intitulado “A Música” ou o “Julgamento do Paraíso”, cujo cartão tem sido atribuído ao pintor de Bruxelas, Jean van Roome, pertence a uma famosa série de quatro tapeçarias intitulada “O Combate entre os Vícios e Virtudes”, que deriva de um importante ciclo iconográfico da idade média, centrado na redenção da alma e salvação do Homem. De caráter narrativo, a ação divide-se por dois níveis horizontais de leitura, nos quais se representa, no superior, o reino de Deus e, no inferior, o mundo terreno. Dominando visualmente o registo superior, a figura masculina coroada e empunhando o cetro é Deus, que preside, no céu, ao julgamento do destino a dar à Humanidade entregue aos vícios. À esquerda, um grupo de oito figuras femininas, parecem convocadas pelas duas figuras que comandam o grupo. Estamos aqui perante o conjunto das Virtudes que debatem o destino do homem pecador. As duas figuras que lideram o grupo de jovens donzelas são as mesmas duas que, em baixo, se lançam contra o grupo deleitado nos prazeres da música. Tratam-se das figuras representando a FORÇA e a JUSTIÇA. À esquerda do trono, uma figura segura na mão esquerda, um livro aberto apontando com a mão direita para as suas páginas. É a VERDADE que aponta para o livro onde estão registadas as faltas cometidas pela Humanidade e para as quais a JUSTIÇA pede o castigo implacável de Deus. Do lado oposto, à direita do trono, outras duas figuras femininas – a primeira de mãos postas e suplicantes, a segunda, mais jovem, de vermelho. São a MISERICORDIA e a PAZ, que advogam a causa do HOMEM e suplicam a Deus o perdão para a humanidade. Na cena seguinte, à direita da tapeçaria é apresentado um terrível combate entre virtudes e vícios, caraterizados, os últimos pela indumentária estranha e fealdade patente em algumas figuras. Na parte inferior, à esquerda, em torno de uma mesa sobre a qual se pode ver um clavicórdio, três figuras femininas e duas masculinas, tocam e cantam. A figura feminina à esquerda toca clavicórdio e na sua frente do outro lado da mesa, um acompanhante toca uma flauta doce. No extremo oposto e ainda no plano inferior, ocorrem várias ações diversas. No sentido dos ponteiros do relógio, deparamo-nos com uma cena de intimidade amorosa; o momento preciso em que o corpete de uma jovem figura feminina está prestes a abrir-se sob a ação do gesto do amante (representando, aqui, o vício da Luxúria). Um outro casal, representado em primeiro plano, parece alheio, entretido em amena conversação enquanto dedilha um órgão de fole. Por detrás do órgão podem ver-se três figuras tocando flautas de bisel. Na retaguarda da organista, o ambiente de deleite musical revela-se ainda na presença de um grupo de músicos, entre os quais uma jovem tangendo uma harpa portátil e duas figuras masculinas que seguram um tamborete e uma outra flauta. Na parte central da tapeçaria, estamos perante o aparente ataque de duas figuras armadas de longas espadas investindo contra outro grupo entretido no deleite dos prazeres dos sentidos. A figura feminina que de espada erguida – a JUSTIÇA – avança na direção da figura masculina, que jaz por terra em evidente pavor. Um pouco mais à esquerda, a segunda figura feminina empunhando uma espada e vestindo um longo manto azul (a FORÇA), vê o seu movimento travado pelo gesto de uma outra figura feminina (a MISERICORDIA), impedindo-a de avançar. Na frente da atacante, ajoelha, de mãos postas, uma figura feminina, a CULPA.

 

Jean van Roome (debuxo)

Flandres, c. 1520

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 1

O TEMPLO DE LATONA

A tapeçaria pertenceu a uma armação de quatro panos, representando a história da rainha Níobe e do terrível castigo infligido pelos deuses Apolo e Diana, filhos de Latona, que é contada por Ovídio no poema “Metamorfoses”. Tecida em Bruxelas, uma réplica (hoje desaparecida) desta armação é descrita no Palácio do Cardeal de Trento. As séries de Lamego e de Trento podem ser cópias de um conjunto original, provavelmente encomendado na Flandres para a corte de Habsburgo, devido à inscrição “AEIOU”, presente na orla da túnica da figura ajoelhada em primeiro plano, que a identifica.

O pano exibe o episódio do ataque ao Templo da Deusa Latona, protagonizado pela rainha Níobe e suas filhas após a morte dos filhos varões de Níobe às mãos da deusa.

Ao centro, aparece a Deusa entronizada. Dos lados, sobre altas colunas, as estátuas de seus filhos tidos de Júpiter, Diana e Apolo, segurando feixes de setas, aludindo à morte dos filhos de Níobe. Um grupo de damas armadas com troncos de árvores, precipita-se da direita, interrompendo as libações sacerdotais e ameaçando os que vieram prestar culto à deusa, trazendo-lhe oferendas.

No primeiro plano, ajoelha uma personagem masculina, defendendo-se de um golpe que uma das damas (a rainha Níobe) se apresta a descarregar. À esquerda, agrupam-se os adoradores de Latona, destacando-se no primeiro plano uma dama que se apressa a abandonar o templo, levando sob o braço um bode e na mão um cesto. No extremo oposto está caído por terra um cesto idêntico e junto um porco, ofertas da personagem ajoelhada ao centro da composição. Tomam parte da ação, dispostos à direita, três sacerdotes, cujas mitras abrem dos lados, em meia-lua, no estilo do século XVI. Duas destas figuras praticam libações sobre a toalha que se vê quase ao meio do trono, e a terceira agita um turíbulo, incensando a deusa.

O templo abre por arcarias sobre fundo de paisagem e tem sobre a cimalha uma série de lâmpadas ardentes.

 

Jean van Roome

Flandres, 1520

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 2

CICLO DE ÉDIPO

Os quatro panos representando a História de Édipo, cujo assunto deriva da obra homónima do escritor grego, Sófocles, constituem um valioso testemunho de uma das mais importantes formas de decoração sumptuária de palácios e residências dos grandes e poderosos, em toda a Europa.

O facto de não se conhecerem outras tapeçarias tratando este tema, permite-nos concluir que se tratou de um tema raro, de pouca divulgação, realizado de acordo com uma encomenda específica. A esta especificidade, realizada possivelmente a partir de uma encomenda particular relacionada com a ação do bispo de Lamego D. Fernando Meneses de Vasconcelos (1513-1540), acresce a sua qualidade artística, indicando tratar-se de uma produção de grande qualidade no que diz respeito aos cartões preparatórios – possivelmente de autoria do pintor flamengo Bernard van Orley – e ao domínio técnico atingido na sua execução, levando a atribuir esta série à oficina de Pieter van Aelst, uma das mais importantes de Bruxelas.

Reveladora da importância a que os sucessivos bispos de Lamego sempre devotaram à sua coleção de tapeçarias, é a sua presença quase ininterrupta no paço episcopal, onde passados mais de três séculos após a sua aquisição, ocupavam lugar destacado: a forrar as paredes de três salões contíguos, o salão de receção, o do trono e o de audiências. Foi aí que, em 1915, o investigador Joaquim de Vasconcelos as encontrou e imediatamente salientou a sua importância.

Laio consulta o oráculo 

Ao centro da composição Laio, rei de Tebas, acompanhado pela sua comitiva, ajoelha à entrada do templo onde o oráculo lhe prediz que morrerá às mãos do filho nascido da rainha Jocasta. À esquerda, abre-se uma câmara, ocupada por um leito com baldaquino, onde se vê Jocasta, mulher do rei Laio. Em redor do leito, damas consolam a rainha pelo desaparecimento do filho recém-nascido. No plano superior, à direita, sob fundo de paisagem, os pastores abandonam Édipo, com os pés trespassados por uma cadeia de couro pela qual foi suspenso numa árvore, depois de o terem recebido recém-nascido das mãos de Laio. No primeiro plano quatro personagens masculinas, em traje de corte, uma delas erguendo um falcão, comentam a cena.

 

Bernard van Orley (debuxo), Pieter Van Aelst (oficina)

Flandres, 1525-1535

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 4

Édipo em Corinto

O pano revela o episódio da adoção de Édipo pelos reis de Corinto.

Em primeiro, ao centro vê-se a Rainha Mérope que oferece um fruto a um menino – Édipo criança -, que corre para ela, fugindo dos braços de um homem – o pastor Forbas, ajoelhado à direita. Junto da rainha, está o rei Polibo com cetro e turbante coroado. Mérope é aqui representada em todo o esplendor da sua beleza realçada pelo traje de sofisticadas mangas, belíssimos tecidos e, sobretudo, pela grande beleza do longo manto de seda, sobre o qual cai uma discreta capa de arminho, assinalando o estatuto régio da personagem. Polibo, rei de Corinto, é representado como um velho monarca, de longas barbas brancas que quase se confundem com os cabelos também longos e brancos. Da coroa real são apenas visíveis as pontas que se erguem sobre o elaborado turbante. Veste um traje curto, cuja saia curta termina por um estreito galão franjado. Em redor, damas e cortesãos assistem e comentam a cena entre si. Fundo de arquiteturas aberto, à esquerda, sobre paisagem.

 

Bernard van Orley (debuxo), Pieter Van Aelst (oficina)

Flandres, 1525-1535

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 3

Édipo em Tebas

O terceiro painel mostra a chegada à cidade de Tebas, onde Édipo se apresenta a um grupo de damas da corte, uma das quais tocando alaúde. A dama com um vestido de brocado vermelho representa possivelmente a sua futura mulher/mãe, Jocasta. Ao fundo, duas vinhetas com acontecimentos passados e futuros encontram-se justapostas uma à outra. À esquerda, Édipo, sem o saber, mata seu pai, Laio, com uma espada e à direita, um Édipo mais velho e de barbas, depois de saber a horrível verdade, cega os seus próprios olhos com um comprido alfinete do vestido de Jocasta. Há várias referências visuais à Antiguidade Clássica, tais como, os elementos arquitetónicos e o medalhão com o retrato de um Imperador romano (Júlio César?), de coroa de louros na cabeça, que se vê em baixo à esquerda. As figuras femininas exibem elegantes trajes renascentistas, típicos da corte de Margarida de Áustria.

 

Bernard van Orley (debuxo), Pieter Van Aelst (oficina)

Flandres, 1525-1535

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 5

Édipo e a rainha Jocasta

O tema central é a coroação de Édipo como rei de Tebas e o casamento com Jocasta.

No centro, o casal régio ocupa o trono sob um alto dossel. Jocasta é representada como uma mulher ainda jovem, ostentando a coroa e o cetro reais. Édipo, a quem uma grossa cadeia de ouro cai sobre o peito, senta-se à direita de Jocasta. No cinto que lhe cinge a veste, mostra a inscrição EDIPVS.

Em primeiro plano e de cada lado da tapeçaria, aproximam-se do trono duas figuras masculinas que, em atitude de reverência, trazem a coroa e o cetro real. Na retaguarda da figura que segura a coroa, agrupam-se outras duas figuras que presenciam a cena. Uma delas aponta para a cena e para Édipo. Entre duas colunas que integram a estrutura arquitetónica de encontro à qual se ergue o trono, podem ver-se dois arautos fazendo soar instrumentos de sopro. No plano posterior esquerdo, o momento no qual Édipo defronta e decifra o enigma da Esfinge.

 

Bernard van Orley (debuxo), Pieter Van Aelst (oficina)

Flandres, 1525-1535

Lã e seda

Antigo paço episcopal de Lamego

Inv. ML 6