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Quo Vadis?

Quo Vadis?

Proveniente da catedral de Lamego, a pintura figurando o Encontro Cristo com São Pedro, em Roma, descrito no texto apócrifo, Atos de Pedro, deverá ter pertencido a um retábulo dedicado ao apóstolo, encomendado para a desaparecida capela de São Pedro, mandada edificar pelo conde de Marialva, D. Francisco Coutinho (c. 1450 – 1530).

Datada de meados do século XVI, truncada a toda a altura e de alterada por posteriores repintes realizados entre os séculos XVIII e XX, a pintura denuncia um pintor de assinaláveis recursos, que concentrou toda a sua capacidade expressiva na transmissão do pathos emocional do momento. Numa representação próxima entre os dois protagonistas, o sofrimento Cristo revela-se de forma comovedora. Os joelhos alquebrados pelo peso da cruz, a coroa de espinhos cravada na cabeça descaída e o pescoço cingido por uma corda espelham o exaspero que na face adquire a forma de resignação. Genufletido à direita, o léxico usado na representação do rosto e mãos de Pedro é recorrente na pintura de Quinhentos, traduzindo a reação de arrebatamento emocional perante o encontro místico. O pé descalço fincado no chão contribui por sua vez para situar a dimensão terrena da ação, ao mesmo tempo que reforça o sentimento de humanidade. É no fundo arquitetónico que se estende por uma vista sobre Roma, com a reconstituição de edifícios «ao antigo», que mais facilmente se deteta mão menos hábil no manejo da luz e do sombreado, bem como na modelação das arquiteturas e no tratamento da perspetiva. De origem retabular, o desmantelamento da antiga estrutura ocorrido provavelmente no século XVIII (ou ainda no anterior) viria alterar a configuração da pintura, originalmente de remate circular, de acordo com o modelo mais generalizado na retabulística de Quinhentos, e de maior largura. A adaptação à nova moldura, de formato retangular, levou, por um lado, a um acrescento da superfície pictórica na parte superior, correspondente à área que estava encoberta pela anterior e, por outro, a um corte de ambos os lados, em prejuízo da leitura integral da composição. Deste modo, para além da forma abrupta como lateralmente terminam os panejamentos e do desequilíbrio resultante de uma verticalidade inesperada, suprimiu-se o episódio da Aparição do anjo a São Pedro na prisão representado em miniatura à direita no mesmo âmbito narrativo da cena principal, numa lógica das habituais conexões da pintura primitiva, que o tempo do barroco já não soube compreender.

 

Pintor não identificado do 2.º quartel do século XVI

Pintura a óleo sobre madeira de castanho

Inv. ML 19