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Gravura África

África | Série “As quatro partes do mundo”

A gravura “África” constitui um dos raros exemplos que se conservam de estampas de grande formato editadas em Paris, no século XVII, com a finalidade de fazer da gravura uma rival da pintura e a de diversificar a oferta comercial, até então, essencialmente consagrada ao retrato e assuntos religiosos.

Gravada por Conrad Lauwers, a partir de uma composição de Louis Licherie de Beurie, foi editada por Pierre Landry, um gravador e, sobretudo, comerciante estabelecido na rua de Saint Jacques, em Paris.

O exemplar do museu é o único que se conhece pertencente a uma série intitulada “As quatro partes do mundo”, estando mencionada no inventário de bens deste gravador, fazendo parte de um lote de pranchas onde são também referidos “Os quatro elementos”, “As quatro estações”, “As quatro horas do dia” e “Os cinco sentidos”. Por morte de Pierre Landry em 1698, o lote viria a tornar-se propriedade de seu filho, François Landry (1668-1720). O exemplar que se conserva em Lamego será já uma prova editada pelo segundo, entre 1709-1720.

A representação iconográfica da África, uma das quatro partes do mundo então conhecidas, era muito popular na cultura barroca, representada com frequência nas procissões religiosas e profanas.

Uma mulher negra vestida à romana exibe dois atributos fundamentais de todas as representações desde a antiguidade: os “enxuviæ elephantis” sobre a cabeça e, na mão esquerda, um escorpião. Aos pés da mulher encontra-se um pequeno altar de devoção decorado nos ângulos por cabeças de carneiro; lateralmente pode ler-se a inscrição África.

Sobre o altar, uma grande serpente enrolada sobre si própria é entregue como oferenda. A mulher está sentada num trono em forma de dragão: língua bífida, asas de morcego e cauda de serpente, que simbolizam as ofensas. O trono está colocado sobre um carro triunfante, com quatro rodas, puxado por um elefante e um par de rinocerontes. O conjunto é dominado por um cornaca, também ele negro e igualmente vestido à romana. No plano do fundo observa-se uma alta montanha, cujo cume está envolto em nuvens. Este recurso iconográfico permite compreender a sua altura extraordinária, representando a mediação entre o mundo terrestre e o divino.

É muito pouco habitual ver um carro puxado por esta união pacífica de dois animais zoologicamente tão opostos: o elefante e o rinoceronte. No momento de compor a sua alegoria a África, Louis Licherie selecionou um modelo a partir da célebre xilogravura do “Rinoceronte” de Albrecht Dürer.

Habitualmente, o carro sobre o qual se encontra a Alegoria a África é puxado por elefantes, sendo muito mais rara a utilização do rinoceronte, e a associação das duas espécies, absolutamente excecional. Esta gravura constitui por isso mesmo um bom exemplo da complexidade das fontes iconográficas e literárias utilizadas e a riqueza da sua interpretação.

As gravuras de grande formato são extremamente frágeis e, consequentemente, também muito raras. Na data em que foi impressa, entre 1709-1720, a produção de gravuras com estas caraterísticas era pouco comum. Além disso, com as dimensões que apresenta, não podia ser realizada senão a troco de uma quantia muito elevada, o que poderá ajudar a sublinhar a sua raridade.

De origem mal documentada, ainda não foi possível esclarecer as circunstâncias que explicam a presença desta estampa nas coleções do museu. Oriunda provavelmente do antigo paço episcopal de Lamego, trata-se de uma peça única no contexto das coleções nacionais, produzida para uma clientela exigente, culta e de gosto refinado, à imagem dos eclesiásticos que habitaram Lamego no século XVIII.

 

Conrad Lauwers (1632-1685), a partir de Louis Licherie de Baeurie (1629-1689), editada por François Landry (1688-1720)

Paris, 1709-1720

Proveniente do antigo Paço Episcopal de Lamego

Inv. ML 6016