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Bíblia [dita de Lamego]

Bíblia [dita de Lamego]

“Avaliar pelos testemunhos remanescentes, Portugal aparenta possuir uma débil tradição no que respeita a versões «em linguagem» do texto bíblico. O cenário, no entanto, enriquecido por investigações diversas, de Mário Martins, Avelino de Jesus da Costa e Aires Nascimento, entre outros, é bem diverso da desolação registada por Carolina Micaelis em final do século passado. As traduções mais ancianas, que haverá que situar pela centúria de trezentos, reportam-se ao Antigo Testamento e dizem respeito não ao texto da vulgata jeronimita, mas à redação da Historia Scholastica, de Pedro Comestor (e não Pedro Lombardo, com as Sentenças, como o título erroneamente declara). Neste contexto pontificam dois singulares monumentos: o desaparecido códice 249 de Alcobaça, perdido putativamente em Roma, onde Fortunato de São Boaventura, que o havia editado em 1829 sob título de Histórias d’abreviado Testamento velho (2 vol.), se exilou após 1834, e o exemplar de Lamego, que se expõe.

Em 1558 encontrava-se na posse de Francisco de Sá, que, em função das proibitivas determinações exaradas pela Inquisição quanto ao uso das bíblias «em linguagem», solicitou licença para continuar em seu poder ao cardeal D. Henriques. Terá pertencido a D. Francisco de Castro e a D. Manuel de Vasconcelos Pereira, provavelmente devido a funções inquisitórias, tendo este, ao tomar posse da Diocese de Lamego, proporcionado morada definitiva ao ilustre códice. Mendes de Castro adianta a hipótese de ter chegando às mãos do antístite lamecense por doação de Dom Diogo Leitão, Deão da Sé de Lamego, que o recebera pela morte da sobrinha, casada que fora com um neto de Francisco de Sá de Miranda. Todavia, o problema da identificação do Francisco de Sá citado na licença inquisitorial com o famoso poeta não está, de todo, resolvido. O certo é que o «Testamento Velho» permaneceu na livraria dos bispos lamecenses até à I República e em caso fez com que viesse a integrar até hoje o acervo do Museu de Lamego, pois ao ser destacado da livraria para o gabinete do diretor, não conheceu o mesmo destino daquela, entretanto, desaloja do antigo Paço Episcopal.

A primeira referência conhecida do códice lamecense encontra-se na obra Cuidados literários do Prelado de Beja (Lisboa 1791), do culto Fr. Manuel do Cenáculo. A João Amaral se tributa notícia breve do manuscrito, em antigo póstumo. Deve-se, no entanto, a J. Mendes de Castro, atual Deão do Cabido lamecense, o resgate de memória deste monumento bíblico, que atirou para ele a atenção do público em artigos diversos até dar à estampa a edição integral e anotada.

O texto acompanha a Historia Scholastica desde o livro dos Génesis até ao livro dos Macabeus. Acresce, recorrendo supletivamente à Vulgata, o livro de Jonas, que aparece mal integrado sob o título do último capítulo do livro dos Macabeus, e ainda a «estória de Job», duas versões do maior interesse. Tradução medieva, de leitura saborosa e ritmada, a «estória de Job» deixa ecoar o fascínio que a figura do sofredor de Hus exercita, ao provocar o crente para o acolhimento da dor, aparente sem sentido da existência humana. Job, homem «sympez e direyto, temente a deos e apartado de todo o mall», acabou, face ao peso do sofrimento que a via submetido, por questionar a justiça divina, do que veio a arrepender-se. Cristo, novo servo de Javé, tão expressivamente cantando por Isaías, há-de levar até ao fim a sua Paixão num silencio que supera em total novidade a atitude de Job, pela entrega abandonada nas mãos de Deus Pai.

O final do volume surge enriquecido com as sentenças do Pirqué Abot, devidas certamente a mão judaica, o que traz ao códice lamecense renovado interesse. Serve de rosto à «Bíblia de Lamego», escrita em letra cuidada, embora sem ornamentos excessivos, um fólio decorado a sanguínea, onde sugere a figura alteada de um profeta, cuja filactera, fazendo recurso ao declinar do Pirqué Abot, avisa: «rime os teus pecados com a esmola ca porventura te perdoará ao Senhor»”. (Soalheiro, 2000).

 

Autoria Desconhecida.

Origem Desconhecida / 1558

Manuscrito sobre papel

Antigo Paço Episcopal de Lamego (?)

Inv. ML 951