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Cadernos Conhecer Conservar Valorizar, número 05_Banner

Editorial

Em dias de Semana Santa

Decorreram com a costumada gravidade e pompa as solenidades comoventíssimas da Semana Santa (…)  Em bem poucas terras do nosso paiz se realizarão mais aparatosamente, anno a anno, os augustos e tragicos mystérios da redempção humana.[1]

 

Não é por mero acaso que o número 5 da revista Conhecer, Conservar, Valorizar é publicado durante a Semana Santa que, pelo segundo ano consecutivo, em Lamego (e no mundo) não é celebrada com a solenidade das cerimónias públicas e procissões, a que ninguém fica indiferente.

A ligação entre o ciclo da Paixão de Cristo, a Semana Santa e as confrarias da Misericórdia pesaram na decisão de dar continuidade à publicação da revista, através da reedição, em formato online, os artigos publicados no catálogo da exposição «Misericórdia de Lamego. 1519-2019» – organizada pelo Museu de Lamego e Misericórdia de Lamego, em 2019, no contexto das celebrações dos 500 anos da fundação dessa Instituição –  dedicados ao estudo e ao tratamento de conservação e restauro de um conjunto de obras, que melhor refletem e particularizam a espiritualidade e produção artística das Misericórdias: “Cristo atado à coluna” e “Ecce Homo” (escultura) e “Flagelação de Cristo” e “Cristo atado à coluna” (pintura).  Com efeito, e ligado à sua vocação caritativa, promovendo a penitência e piedade individual, o ciclo da Paixão era um dos temas mais acarinhados por estas confrarias, que tinha, como momento alto, as manifestações públicas que eram organizadas durante a Semana Santa.

Incorporadas no Museu de Lamego, muito provavelmente, no contexto da demolição da primitiva igreja da Misericórdia, após o grande incêndio que, em 1911, devastou a rua de Almacave, causando graves danos no interior do templo, as pinturas e esculturas foram alvo de tratamento de conservação e restauro, entre 2016 e 2019, ao abrigo do projeto de fundraising Conhecer, Conservar, Valorizar, que decorreu, em paralelo, com um trabalho de pesquisa e de renovada leitura das fontes, que esteve na origem do núcleo “A Encomenda e os Artistas”, da referida exposição. A pintura da “Visitação” da Virgem a sua prima Isabel, que completava esse núcleo, permitindo reunir, pela primeira vez, as obras que remanesceram dos retábulos da capela-mor e colaterais da primeira campanha de decoração do templo, ocorrida entre 1561-1574, a cargo do pintor António Leitão e do escultor João António. A atribuição das pinturas “Jesus atado à coluna” e “Flagelação de Jesus”, a Luísa dos Reis, pintora flamenga e mulher de António Leitão, proposta por Beatriz Albuquerque, responsável pelos artigos da revista, dedicados à análise formal, estilística e de contextualização das peças, carecendo de um estudo mais aprofundado, não deixa de apontar um caminho interessante para futuros trabalhos de investigação.

Cabe às autoras, que colaboraram neste número, para além da mencionada investigadora, as conservadoras restauradoras Rosa Vouga (DRCN – Centro de Conservação e Restauro de Viseu), Ana Brito, Ana Figueiredo, Rita Veiga e Sílvia Rocha (PortoRestauro), o nosso reconhecido agradecimento.

De igual modo, agradecemos à Santa Casa da Misericórdia de Lamego, a coorganização da exposição e catálogo e, por último, uma palavra de apreço à generosidade dos inúmeros anónimos que, através do seu mecenato, tornam possível a continuidade do projeto Conhecer, Conservar, Valorizar que, em 2021, celebra 10 anos de sucessos.

 

Alexandra Falcão

2 de abril 2021

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[1] Jornal A Semana, n. 261, 1903.


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